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O CONVITE – OLIVIA WILDE (2026)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • há 3 dias
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 10 horas



QUEM TEM MEDO DE PENÉLOPE CRUZ?

António Roma Torres

 

O filme começa a um fim de tarde. Joe (Seth Rogen) é um músico subaproveitado que acaba o dia de trabalho como professor a ensaiar uma jazz band num conservatório em San Francisco. A rotina cumpre-se até à chegada a casa, onde o espera uma inquieta Angela (Olivia Wilde), dona de casa, com uma filha adolescente que foi passar o fim de semana em casa de uma família amiga.  A satisfação também não é a nota dominante da vida do casal, incluindo o plano sexual. O casal está sozinho em casa e fala, portanto, abertamente, mas a comunicação ocorre também em passos movimentados num amplo andar onde vivem. Não será propriamente um bailado porque é expresso o desencontro, ou até o evitamento.


Angela a meio da conversa anuncia ter convidado o casal que vive no andar de cima a partilhar um jantar simples em casa deles para travarem conhecimento, seja o que for que as palavras possam querer dizer, e uma vez que já acompanhavam com incómodo, ou subentendida curiosidade, a ruidosa vida íntima eventualmente mais satisfatória que o deficiente isolamento sonoro nas condições habitacionais da cidade moderna propiciam conhecer.


E eis que, talvez passada uma meia hora inicial, toca a campainha e entra Piña (Penélope Cruz), espanhola, morena de cabelo loiro pintado, terapeuta e sexóloga, com um mais modesto companheiro recente, Hawk (Edward Norton), viúvo e seu anterior paciente.


A esse tempo, o espectador, mesmo o menos avisado, terá percebido já tratar-se provavelmente de uma variação da peça de Edward Albee de 1962, Quem Tem Medo de Virginia Wolf?, filme de estreia como realizador do actor e encenador Mike Nichols em 1969, com Elizabeth Taylor e Richard Burton emulando a sua trepidante relação sentimental na vida real e na imprensa, a primeira premiada com o seu segundo oscar de melhor interpretação feminina principal na quinta e última nomeação, com Sandy Dennis também premiada como coadjuvante, e Burton e George Segal nomeados nas correspondentes interpretações masculinas, em cinco oscars no total, eventualmente com um maior acento cómico ou até brejeiro, que os novos tempos permitem, sem no entanto alcançar talvez o estatuto de perícia de linguagem que inclusive constituiu matéria de análise de um capítulo do paradigmático livro Pragmática da Comunicação Humana de Paul Watzlawick, Jeanet Beavin e Don D. Jackson (1967).


Ou poderá talvez lembrar-se de O Deus da Carnificina (2007) da francesa Yasmine Reza, adaptada ao cinema por Roman Polanski em 2011, num tom mais cómico que acaba em tragédia, com os pais de Zachary, Alan (Christoph Waltz)  e Nancy (Kate Winslet), tentando resolver civilizadamente com os pais de Ethan, agredido pelo filho, Michael (John C. Reilly) e (também) Penélope (Jodie Foster) um conflito que parece fora de controle.


O quadro é manifestamente teatral e O Convite é também na sua origem uma peça, no caso catalã, Els veïns de dalt (2016) de Cesc Gay, que dirigiu a adaptação cinematográfica intitulada Sentimental (2020), havendo também outras adaptações, em Itália Vicini di Casa (2022) de Paolo Costella e na Rússia Neprilichnye gosti – Convidados indecentes (2024) de Goga Mamadzhanyan, provavelmente num registo mais trivial, e anuncia-se ainda para este ano a estreia de uma versão luso-brasileira intitulada O Pecado Mora em Cima (2026) de Rui Pedro Sousa.


Em O Convite Olivia Wilde dá a cara como intérprete e também como realizadora, e provavelmente alcançou um patamar mais alto (para usar a metáfora da construção que o cenário da acção sustenta) graças à contribuição dos co-argumentistas e dos actores, com realce para Seth Rogen e Penélope Cruz.


Os argumentistas Rachida Jones, filha do músico de jazz Quincy Jones, e William McCormack, tinham já assinado juntos o argumento de Celeste e Jesse Para Sempre (2012) de Lee Toland Krieger, com Rachida interpretando um papel principal como membro de um casal em processo de divórcio, tendo McCormack também ganhado com Michael Govier um oscar de melhor filme curto de animação em 2021 em Se Algo Acontecer…Te Amo, e ambos tendo trabalhado no argumento do longo de animação Toy Story 4. O argumento de O Convite foi elaborado em sessões de ensaio e improvisação com os actores e a filiação de Rachida provavelmente influenciou toda a consistência da construção do personagem de Seth Rogen como músico.


Olivia Wilde realiza aqui o seu terceiro filme, depois de Fora de Série (2019) e Não se Preocupe, Querida (2022), e obviamente o mais ambicioso, investindo num período de ensaios e improvisação com os actores e os argumentistas e posterior rodagem em sequência cronológica, mas embora ela seja uma das intérpretes pode dizer-se que Seth Rogen tem um papel dominante, não apenas pela estrutura do argumento mas pela participação anterior de Olivia Wilde como actriz no Episódio 4 da Temporada 1, The Missing Reel, na série televisiva The Studio (Apple TV) que Rogen co-dirigiu com Evan Goldberg e lhe valeu grande notoriedade nos Prémios Emmys, Globos de Ouro e do American Film Institute (AFI).


Depois de um período inicial na sua carreira, em dupla nos chamados buddy movies com James Franco, inicialmente com a série juvenil de 18 episódios Freaks and Geeks (1999-2000), e depois em repetidos sucessos cómicos no grande ecrã, com um estilo bem expresso nos títulos Um Azar do Caraças (2007), Alta Pedrada (2008), O Besouro Verde (2011), Isto É O Fim! (2013) e Uma Entrevista de Loucos (2014), aí satirizando dois apresentadores de televisão fúteis envolvidos numa tentativa de assassinato do ditador da Coreia do Norte que teve grande brado e originou embaraços diplomáticos, para finalizar apenas numa curta aparição em Um Desastre de Artista (2017), realizado por James Franco já prenunciando o final desta parceria pelo escândalo do comportamento inapropriado de Franco com alunas de uma sua escola de teatro que se abateu sobre ele em 2021, enquanto Seth Rogen se conseguiu reciclar primeiro no excelente papel do bem simpático tio Benny, de grande importância no drama familiar por interposta ficção que constitui Os Fabelmans (2022) de Steven Spielberg, e definitivamente em The Studio (2025), como co-realizador com Evan Goldberg e principal actor, numa primeira temporada de série televisiva da Apple TV+, com grande sucesso nos prémios de realização e interpretação de televisão, nos Emmy ou nos Globos de Ouro.


Mas enquanto no sucesso televisivo The Studio Seth Rogen no papel de Matt Revick é um director de um programa de televisão que expõe a máquina em que opera com uma distância crítica que já se vinha acentuando nas suas comédias, em O Convite o seu personagem, Joe, assume a fragilidade do ser humano que está preso numa engrenagem que o domina e de que ele só se pode libertar por um golpe de génio, criativo que seja já que se trata de um artista, e expresso na catarse final em que ele se reconcilia com o piano, como um instrumento musical que permite dar conta de um complexo conjunto de emoções.


Não espantará, pois que Seth Rogen venha a ser nomeado ou até vença na categoria da interpretação masculina principal nos Globos de Ouro, este ano do cinema, e depois nos oscars de Hollywood.


Para isso contribui a formulação realista do papel, e até a empatia que a interpretação de Seth Rogen lhe comunica, mas de certa forma a terapeuta e sexóloga Piña, que Penélope Cruz interpreta com grande garra e vivacidade, coloca o casal do andar de cima numa posição meta, virtual, que surge e desaparece até de uma forma bastante inóspita, como se fosse um artifício de leitura da própria vida de Joe e Angela, e das fantasias que desenvolvem sobre as noites animadas no andar de cima de que inadvertidamente se apercebem.


O filme começa com uma conversa bastante desabrida do casal sobre a sua insatisfação sexual, mas rapidamente a intrusão do casal de cima ao jantar se transforma numa ousada proposta de sexo grupal, para se resumir depois a uma desajeitada troca de casais e mais num plano conversacional que físico, já que as dores de costas de Joe parecem inabilitá-lo seriamente de entrar no jogo.


Toda a sequência de Seth Rogen e Penélope Cruz, bem divertida e muito bem interpretada, vai passar por diferentes tons que desequilibram os mecanismos homeostáticos que o defendem de algum compromisso com a mudança, com Piña a desculpar-se por ter transformado o jantar numa sessão de terapia sem licença nem contexto.


Na realidade se no plano verbal o casal parece acabar decidido a separar-se a verdade é que pode ainda haver, na arte, como no sexo, suficiente elã vital capaz de os reanimar. O casal de cima pode acordá-los para a vida, mais que apenas a meio da noite.


Acresce que no final dos créditos a dedicatória do filme “para Diane”, se refere a Diane Keaton, falecida ao tempo em que o filme foi terminado e de quem Olivia Wilde foi filha no filme em que ela desempenhou o papel de sua mãe, Os Coopers São o Máximo (2015), sendo que Penélope Cruz recebeu um oscar de interpretação co-adjuvante em Vickie Cristina Barcelona (2008) de Woody Allen. Há um certo ar de família nestas ligações.

 

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