DIA D – SOB PRESSÃO – ANTHONY MARAS (2026)

MAU TEMPO NO CANAL
António Roma Torres
A cuidada preparação, algumas tentativas prévias frustradas ou finalmente o heróico desembarque das tropas americanas na Europa e a sua progressão posterior até Berlim, constituem alguns dos exemplos de um género cinematográfico que Hollywood “inventou” ainda durante a II Guerra Mundial e foi consolidando com o que hoje vemos mais claramente como uma nova ordem internacional estabelecida com a vitória dos aliados. Tratava-se de uma fórmula de sucesso junto do público, mas desde o início da intervenção americana no conflito e no pós-guerra até à queda do regime soviético não deixou de ser considerada uma forma de intervenção na sociedade civil relevante para o departamento de defesa americano. Entre 1942 e 1945 Hollywood criou mais de 200 filmes centrados na II Guerra Mundial e o crítico Dave Luhrssen no livro World War II on Film (2021), onde analisa doze filmes realizados entre 1942 e 2017, de Sabotagem de Alfred Hitchcock a Dunquerque de Christopher Nolan, refere que “o governo considerava isso uma parte essencial da indústria da defesa. Hollywood beneficiava de privilégios especiais no que diz respeito a materiais e pessoal. Não havia dúvida de que o governo dos EUA via Hollywood como um fator essencial para vencer a guerra”.
Mesmo filmes posteriores celebraram episódios relevantes da conquista da Europa pelos americanos e as tropas aliadas, desde O Dia Mais Longo (1962) de Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki a Patton (1972) de Franklin J. Shaffner, sete oscars incluindo filme, realização, interpretação de George C. Scott, argumento de Francis Ford Coppola e Edmund H. North, direcção artística, montagem e som, e outros relevantes filmes como Um Passeio ao Sol (1945) de Lewis Millestone, A Grande Batalha (1949) de William A. Wellman, O Inferno é Para Os Heróis (1962) de Don Siegel, A Batalha das Ardenas (1965) de Ken Annakin, A Batalha de Anzio (1968) de Edward Dmytryck, A Ponte de Remagen (1969) de John Guillermin, Uma Ponte Longe Demais (1977) de Richard Attenborough, O Sargento da Força Um (1980) de Samuel Fuller, ele próprio um antigo combatente, O Resgate do Soldado Ryan (1998) de Steven Spielberg, Anjos no Inferno (2003) de Ryan Little ou Fúria (2014) de David Ayer.
Em 2017 dois filmes abordaram a II Grande Guerra centrando-se sobre os cenários da decisão política e diplomática mais do que no campo de batalha, tendo como personagem principal o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, interpretado por Gary Oldman, valendo-lhe aliás o oscar de papel principal em A Hora Mais Negra de Joe Wright e por Brian Cox em Churchill de Jonathan Teplitzky.
Dia D – Sob Pressão, surge agora com algum recuo crítico, abordando um outro personagem central no topo dos círculos políticos das forças aliadas, o general Dwight D. Eisenhower (Brendan Fraser), militar americano que as comandou e anos mais tarde viria a ser presidente dos Estados Unidos, mas com uma forte tensão nos sucessivos dias que precederam o desembarque na Normandia.
Diga-se desde já que a distribuição do filme, uma vez mais, ajeitou a tradução do título original Pressure para Dia D – Sob Pressão habilitando o espectador interessado sobre a ligação do filme à Segunda Guerra Mundial, apoucando contudo a sua atenção e informação prévia, e desfazendo a ironia que no fundo se pode desvendar no original o filme mais propriamente dramático que de guerra, já que associa a pressão dos comandos de guerra à medição barométrica que preside às observações meteorológicas que surpreendentemente estão no centro do filme. Afinal é mesmo de pressão que o filme pretende falar e mesmo a relevância no argumento do filme, da meteorologia que possa aumentar a previsibilidade do dia de amanhã, também associada a Disclosure Day de Steven Spielberg, simultaneamente no cartaz e outro D-Day em referência, não por coincidência tentará aclarar uma certa ansiedade cósmica dos tempos presentes.
O filme acompanha as 72 horas que precederam o desembarque da Normandia nos altos gabinetes das decisões politico-militares e não é irrelevante que tenha tido origem numa peça de teatro de David Haig estreada em Edimburgo em 2014, que aliás interpretou também o papel principal.
Habilmente o filme convoca alguns conflitos dramáticos que polarizam as graves decisões a ser tomadas naqueles curtos dias.
O filme arranca no dia 2 de Junho de 1944 com a apresentação do capitão escocês James Stagg (Andrew Scott) no quartel-general do comando aliado em Southwick House. Vem altamente credenciado pelo próprio primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, como o mais competente meteorologista no activo. Trata-se de colaborar com a equipa americana chefiada pelo coronel Irving Krick (Chris Messina). Logo no primeiro contacto são visíveis as diferenças dos dois homens. O americano é expansivo, apreciador de jazz com discos e instrumentos espalhados pela sala de trabalhos, exalando auto-confiança e optimismo. O escocês, circunspecto, pretende um gabinete mais sossegado para se poder concentrar nos mapas das pressões atmosféricas. O que se pretende é saber com toda a precisão as condições atmosféricas da noite de 5 para 6 em que há as melhores condições de visibilidade lunar para o desembarque na Normandia das tropas aliadas.
Mesmo sem consultar os mapas atmosféricos o espectador esperará o confronto entre os dois homens, mas o filme é muito mais subtil do que isso. Em primeiro lugar não será pelo grau de convicção ou de certeza de qualquer deles que a questão será decidida e repare-se que de início os peritos assinalam que a ciência apenas lhes permite elaborar probabilidades enquanto aproximando a hora de decidir mais natural é exigir a certeza de um compromisso e aqui a qualidade dramática do diálogo é assinalável. Por outro lado, a decisão entre as conclusões opostas de cada lado, obriga a pesar os riscos e o balanço entre um método baseado nos análogos históricos e outro na versão mais pessimista do maior número de dados na observação actual não se estabelece em formas relativas de pensamento.
A verdade é que o dilema do general comandante implica diferentes valorizações do que pode querer dizer a palavra coragem. Em qualquer dos casos a decisão será sua em consciência e terá de optar pela coragem de travar a tempo e evitar um desastre ou a coragem de enfrentar o combate custe o que custar e não dar sinais de tibieza.
Neste ponto o argumento introduz outras variáveis e dois diferentes momentos de tensão dramática. Numa esfera mais privada, sem se aventurar em saber a que ponto a relação do general com a sua secretária, Kay Summersby (Kerry Condon), terá sido mais ou menos privada, o general poderá expressar a culpa ou escrúpulo das baixas militares severas dos homens sob o seu comando surpreendidos por inesperado fogo nazi ou inadvertido e fatal fogo amigo, com que terminara o exercício Tiger feito algumas semanas atrás. Aliás Kay interpreta o corpo militar feminino que se permite a expressão maior de emoções, visível na tentativa de conforto prestado a Stagg nos momentos de maior embate e isolamento na sua posição, não diminuindo em nada a lealdade aos objectivos da missão. Por outro lado, no nível da hierarquia superior, mas igualmente opondo britânicos e americanos mesmo se aliados, Eisenhower tem de enfrentar a oposição do fogoso, mas por vezes exagerado até ao ridículo, General Bernard Law Montgomery (Damian Lewis), numa interpretação subtil e generosa, menos ácida que a de Michael Bates em Patton. Note-se que o personagem não existia presente na peça original, mas ganha relevo na adaptação cinematográfica ao servir o retrato de Eisenhower, racional e sem estados de alma para o exterior, o que de certa maneira desorientou a interpretação baça de Brendan Fraser, em todo o caso um actor já distinguido com o oscar de interpretação principal em A Baleia (2022) de Darren Aronofsky, mas o torna num personagem muito menos interessante que o Churchill dos filmes nele centrados em 2017.
Mas o tempo no canal da Mancha é por natureza instável e de repente os dados são alterados e os meteorologistas acabam por prever uma aberta e propor nova alteração dos planos apoiando-se agora um ao outro, Stagg e Krick, de forma solidária e sem ressentimentos. Factos novos parecem modificar relações de personagens sob pressão atenuando as suspeitas que os palcos militares exacerbam os egos dos principais intervenientes. Provavelmente na guerra ganha quem mantém o sangue frio e sabe mudar as opiniões para aderir preferencialmente à objectividade dos factos.
Esta é a segunda longa-metragem do australiano Anthony Maras e ele parece ter-se saído bem num cinema de factos reais, como já tinha sido Hotel Mumbai (2018), sobre um ataque terrorista ao Taj Mahal Palace Hotel em Mumbai em 2008, parecendo sentir-se à vontade num cinema que procura dissecar casos reais, ao mesmo tempo respeitando as regras do thriller cinematográfico.
Manter-se ligado aos factos contra toda a pressão é a magnífica lição de heroicidade que a extraordinária interpretação de Andrew Scott nos consegue comunicar e torna este filme memorável em muitas das suas opções dramáticas e narrativas.


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