A GRANDE ELEANOR - SCARLETT JOHANSSON (2025)
- António Roma Torres

- há 23 horas
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Atualizado: há 2 horas
A VERDADEIRA HISTÓRIA
António Roma Torres
O ser humano é desde sempre um contador de histórias. Mas enquanto vivo ele é sempre também desestabilizador das suas próprias histórias. Nada se pode dar definitivamente por terminado como pensadores como Hannah Arendt e Mikhail Bakhtin muito bem formularam nos difíceis contextos do nazismo e do estalinismo. Naturalmente com os riscos que isso comporta e consequentemente uma dimensão moral e ética que não é negligenciável. E isso é sempre actualizado numa performance que abre campo à experiência do teatro enquanto arte, prolongado de certa maneira no cinema, e do psicodrama enquanto terapia. Mas também pode ser julgado em nome da verdade e do erro ou do engano. E porque os caminhos são estreitos e o relativismo se torna intrinsecamente ambíguo implicam a consciência do significado do perdão e do diálogo.
Scarlett Johansson é ainda uma jovem actriz nascida em 22 de Novembro de 1984. Mas assina agora com grande mérito em A Grande Eleanor uma primeira longa-metragem como realizadora e fá-lo com a coragem e a inteligência de aceitar correr riscos. E se quisermos também com “a ternura dos quarenta” que lhe permite não ter medo de regressar a um género sempre difícil que é o melodrama que Chaplin, Visconti, Fassbinder ou Almodóvar (para citar só quatro nomes de muito distintas referências cinematográficas) orgulhosamente cultivaram, mas ao mesmo tempo conjugando também a sóbria tradição de alguns grandes actores do cinema americano que se atreveram ocasionalmente a passar para o outro lado da câmara às vezes conjugando a direcção com a representação, como Robert de Niro e Um Bairro em Nova Iorque (1993) ou Jodie Foster e O Castor (2011), sem esquecer o inicial Mentes que Brilham (1991), ou outras vezes, mais lá para trás em décadas passadas, saboreando com grande contenção a assinatura de autor que através da representação de outros actores penetraram com seriedade na pequena geometria das relações familiares, como Paul Newman em Raquel, Raquel (1968), e depois já também em cena O Confronto (1984), ou Robert Redford, oscar de melhor realizador em Gente Vulgar (1980).
Note-se que parece abrir-se desde logo na sua própria biografia um diálogo com a experiência pessoal vivenciada na passagem da idade. De facto, Scarlett Johannson começou a carreira aos 10 anos em pequenos papéis, com destaque aos 13 anos para O Encantador de Cavalos (1998), aliás com direcção e interpretação do mesmo Robert Redford, anunciando um começo de carreira adulta fulgurante em O Amor é um Lugar Estranho (2003), de Sofia Coppola, e depois três filmes de Woody Allen, Match Point (2005), Scoop (2006) e Vicky Cristina Barcelona (2008), fragmentando-se nos mais cerebrais Debaixo da Pele (2013) de Jonhatan Glazer e Lucy (2014) de Luc Besson e emprestando a sua característica voz a Uma História de Amor (Her, 2013) de Spike Jonze, ex-marido de Sofia Coppola, para se reencontrar no pos-bergmaniano Marriage Story (2019) de Noah Baumbach e no alucinado Jojo Rabbit (2019) de Taika Waititi, com duas nomeações para oscar no mesmo ano, respectivamente em papéis principal e secundário, enquanto se enredava como Nastassia Romanoff no Universo Cinematográfico Marvel, um franchise resultante da aquisição pela Disney da Marvel Entertainment em 2009, tendo um apreciável sucesso de bilheteira entre 2010 (O Homem de Ferro 2,de Jon Favreau) e 2021 (A Viúva Negra, de Cate Shortland) com nove filmes entre Vingadores, Capitão América e Capitão Marvel que abandonou definitivamente em litígio com a Marvel-Disney em 2025.
Ao colocar-se do outro lado da câmara para contar uma história Scarlett Johansson está a contar a sua história ou a história de quem? E a qualidade desta sua estreia como realizadora é ter sabido equacionar esta questão sem travar a empatia que o ingrediente básico do melodrama supõe. Como ela própria declarou “A Grande Eleanor é um filme sobre o luto, sobre a conectividade humana e também sobre o perdão. É ainda sobre a verdade versus a realidade, e sobre quem tem o direito de contar a história de outra pessoa, ou será que temos o direito de contar a história de outra pessoa? Há muitas coisas nele. Certamente, a identidade judaica faz parte disso.”
O lugar de fala e o direito de falar não é uma questão assim tão simples nestes difíceis tempos do wokismo. A essência da memória inenarrável das vítimas do Holocausto e por outro lado a verdade que o mundo não pode esquecer e nem mesmo é só património dos judeus, depois do 7 de Outubro do ataque do Hamas a Israel e das atrocidades sobre a população palestiniana na guerra de Gaza que se lhe seguiu, exige um cuidado e uma precisão de quem o queira abordar numa perspectiva aberta do futuro e Scarlett Johansson na sua primeira obra como realizadora mostrou-se plenamente à altura do empreendimento.
A Grande Eleanor é assim um filme ao mesmo tempo muito complexo e muito simples, a começar logo pelo trabalho de argumento da também neófita no seu primeiro filme, Tory Kamen, ela própria judia e evocando as suas memórias familiares na transmissão de um sentimento de pertença que a precedeu, e que é também nuclear à vivência de uma religião.
O diálogo como experiência dramática e de vida que estrutura o argumento de A Grande Eleanor é assim próximo de um outro filme de 1993 que no original de intitulou A Bronx Tale (Um Bairro em Nova Iorque de Robert de Niro) e é interessante comparar o trabalho de construção do argumento de Tory Kamen com o de Chazz Palminteri, também actor e antagonista de De Niro no filme, baseado num monólogo sobre o passado de um crescimento adolescente entre dois modelos de um pai modesto motorista de autocarro e o líder da mafia local, que Palminteri trará a Lisboa ao Cinema São Jorge em actuação ao vivo no próximo dia 10 de Junho, com o apoio da organização do novaiorquino Festival de Tribeca em Lisboa. Nesse filme era objecto de atenção o Bronx católico, como agora se foca o Bronx judaico de Kamen e de Melanie Sloan, mãe de Scarlett Johansson e produtora de um dos seus filmes iniciais, Uma Canção de Amor (2004) com John Travolta.
Neste mosaico dialógico a história é inicialmente contada por Bessie (Rita Zohar, actriz israelita, nascida na Ucrânia e ela própria vítima infantil do Holocausto) à sua grande amiga dos últimos anos de vida, Eleanor Morgeistein (June Squibb, actriz de 94 anos, nomeada para um oscar em papel secundário por Nebraska, de Alexander Payne, com quem já tivera um papel de esposa do protagonista Jack Nicholson em As Confissões de Schmith, e também ela própria na vida real acolhida na comunidade judaica por um anterior casamento), que após a sua morte se desloca da Florida para Nova Iorque onde vive a filha Lisa (Jessica Hecht) e o neto Max (Will Price) num pequeno núcleo familiar e perante o anonimato da grande metrópole encontra uma âncora numa jovem negra, estudante de jornalismo, Nina (Erin Kellyman, actriz britânica muito bem envolvida no contexto americano da película), perdida numa relação distante com o pai, Roger Davis (Chiwetel Ejofor, com uma nomeação para oscar em 12 Anos Escravo), após a morte da mãe por um cancro da mama. Quando Eleanor vai desenvolvendo a sua impersonação de Bessie, de início caindo sem se aperceber num grupo de ajuda para vítimas do Holocausto, Nina desenvolve nessa parte de verdade de uma história duplamente alheia a relação densa e verdadeira que buscava e o seu grupo etário não lhe oferecera, ao mesmo tempo que surpreendentemente torna-se visível aos olhos do pai, famoso editor e apresentador de um programa de televisão de larga audiência, cabendo-lhe a responsabilidade de pôr no ar a verdade de um caso singular.
Afinal, sem relativizar os perigos da falsidade e do abuso, o dilema surge em
como se pode encontrar a verdade que abre o futuro melhor para cada um e para todos, e muito inteligentemente Scarlett Johansson (e Tory Kamen) vai alcançá-la depois de um clímax de grande beleza e significado, coincidindo com o Bat Mitzvah judaico, ritual de adolescência que lhe havia sido impedido na idade própria dos doze anos, que o rabi Cohen (Stephen Singer) orienta no estudo da parte da Torá que lhe atribui, manifestação de adesão ao mandamento divino, a que sucede a decepção do anti-clímax que a revelação da mentira traz, e finalmente a superação do perdão e da reconciliação maior.
Aos 41 anos Scarlett Johansson não tem talvez ainda a idade certa para a obra-prima que chega a esboçar, mas mostra inapelavelmente não lhe faltar como cineasta-autora o talento que a sua carreira de actriz cedo tinha revelado. Pode dizer-se que em termos cinematográficos Scarlett Johansson faz o seu acto de confirmação, o seu Bat Mitzvah. Ou como Elianor pode recordar nas palavras de Bessie: "Levei anos para voltar a rezar. E...Acho que estou a começar a... entender. Talvez...Talvez Deus me tenha salvado [no Holocausto] ... para que eu pudesse partilhar a minha vida contigo". É essa partilha, esse encontro, esse diálogo, essa ligação a essência de toda a religião, segundo a própria etimologia da palavra: do latim re-ligare.


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