top of page

BLUE MOON - RICHARD LINKLATER (2025)

  • Foto do escritor: Antonio Roma Torres
    Antonio Roma Torres
  • há 14 minutos
  • 6 min de leitura


UM BRILHANTE MONÓLOGO

António Roma Torres

 

Richard Linklater, realizador norte-americano que se tem vindo a afirmar num registo ligeiro, mas de evidente interesse cinéfilo e historicista, realizou em 2025 dois filmes: Nouvelle Vague, já estreado em Portugal nesta temporada, e Blue Moon, que agora surge nos nossos ecrãs mas tinha antes sido anunciado como remetido apenas para o streaming.


Nouvelle Vague, sobre a rodagem de O Acossado de Jean-Luc Godard e falado em francês, e por isso conseguiu ganhar no passado dia 26 de Fevereiro quatro prémios franceses, ditos César, incluindo de melhor realizador, em dez nomeações, foi exibido em salas de cinema embora com permanência curta no cartaz. Blue Moon viu essa oportunidade surgir talvez com o anúncio em 22 de Janeiro das duas nomeações que teve para os oscars, melhor interpretação masculina (Ethan Hawke) e melhor argumento original, a entregar em 15 de Março.


E, no entanto, essa hesitação compreende-se mal já que a primeira constatação a fazer é que, parafraseando Mark Twain, foi largamente exagerada a notícia da morte do cinema. Pelo contrário, Blue Moon vem mostrar que ele afinal está bem vivo e a reinventar-se constantemente. Claro que a reinvenção pode ser mais exigente no apêlo aos favores do público e assim parecer que somente um pequeno nicho de mercado estará disponível para o receber.


Blue Moon é uma biografia do letrista célebre, da Broadway e de Hollywood, Lorenz Hart (Ethan Hawke), morto precocemente aos 48 anos vítima de alcoolismo crónico e complicações de uma pneumonia, poucos dias depois de ser encontrado inanimado numa esquina da Oitava Avenida de Manhattan e levado ao hospital em 18 de Novembro de 1943, dia seguinte à estreia de Um Yankee na Corte do Rei Artur em versão reescrita do original de sucesso em 1927, aliás cena inicial do filme, que retrocede depois a um longo flashback no dia da estreia de Oklahoma! em 31 de Março de1943). Acontece que Um Yankee na Corte do Rei Artur, baseado num romance de Mark Twain, nessa versão reescrita acabou por ser a última colaboração de Lorenz Hart com o grande compositor de musicais, nos palcos e nos ecrãs, Richard Rodgers (Andrew Scott), enquanto Oklahoma! marca precisamente o início de uma nova dupla do compositor com Oscar Hammerstein II (Simon Delaney), antes portanto da morte de Lorenz Hart.


Os curtos diálogos de Hart com estes companheiros de profissão alternam com alguns outros curtos diálogos com Elizabeth Weiland (Margaret Qualley), aparentemente uma anónima estudante da Yale School of Fine Arts, mas que o genérico do filme informa ter-se correspondido com Lorenz Hart, cujas cartas foram conhecidas pelo argumentista Robert Kaplow que as adquiriu num alfarrabista (talvez por isso a nomeação para o oscar é na categoria não de argumento adaptado mas antes original).


Apesar dessas curtas contracenas, a que acresce a conversa com o barman, Eddie (Bobby Cannevale), ou o escritor, solitário como Hart, E. B. White (Patrick Kennedy), o pianista Morty Rifkin (Jonah Lees) e o jovem estafeta Sven (Giles Surridge) que entrega flores, o argumento é na realidade um longo monólogo de Hart, circulando no bar, sombrio e carregado de fumo, do Restaurante Sardi’s, onde acabam por confluir os artistas e convidados de Oklahoma!, após o espectáculo em noite de estreia.


O texto é um exemplo da construção memorialista da escrita que Linklater filma, na linha do seu anterior Me and Orson Welles (inédito em Portugal), que retrata a encenação de Julius Caesar de Shakespeare no Mercure Theatre antes ainda de Welles se ter tornado director de cinema, mas o que dá a maior força ao solilóquio é a própria interpretação de Ethan Hawke, filmado de uma forma que o aproxima da estatura de Hart (1,52 m), enquanto o actor mede na realidade 1,79m., e a caracterização de uma calvície inicial.


Este é o nono filme de Hawke dirigido por Linklater, depois da trilogia Antes do Amanhecer (1995), e Antes do Anoitecer (2004), Antes da Meia-Noite (2013), em que foi igualmente co-argumentista nos dois últimos com nomeações para o oscar nessa categoria, e do tour de force que foi Boyhood: Momentos de Uma Vida (2014), acompanhando ao longo dos anos o crescimento/envelhecimento dos actores-intérpretes, e ainda  Os Irmãos Fora-da-Lei (1998)Acordar para a Vida (2001)Tape (2001)Geração Fast Food (2006), e isso talvez tenha permitido um exercício de superação numa interpretação em que procura uma total transformação na aparência e identificação com a personagem, Lorenz Hart, com uma terceira nomeação para o oscar de interpretação e desta vez com grande probabilidade de o vencer.


O filme é, portanto, mais do que um momento exibicionista de uma poderosa interpretação, notoriamente competindo e contrastando na cerimónia dos oscars com o Timothée Chalamet de Marty Supreme, uma seriíssima homenagem a Lorenz Hart e ao seu percurso autodestrutivo no ano do meio da Grande Guerra na Europa que o pianista fardado evoca, mas também a uma profissão do teatro e do cinema musicado que é a do letrista, na América designado como lyricist, em que o  trabalho literário é precedido da composição musical à qual se deve ajustar ao invés do poema que usualmente a precede e o objectivo se torna musicá-lo.


Alec Wilder escrevia em 1976 no The New Yorker, numa recensão do livro-antologia Thou Swell, Thou Witty, sobre Lorenz Hart publicado pela sua cunhada então já viúva Dorothy Hart, que “é uma experiência estranha ler as letras de Hart sem ouvir a música de Richard Rodgers. Os compositores sempre assumiram que as letras e a música são tão interdependentes que nunca se deve citar uma letra sem cantá-la. E, na maioria dos casos, isso é verdade, pois poucas letras podem existir sozinhas — mesmo as letras superiores escritas para o teatro. Por outro lado, os músicos de jazz convenceram-me de que uma melodia pode sobreviver à ausência de uma letra”.


O trabalho do lyricist não é, portanto, menor e no longo monólogo que organiza o filme, complementado aqui e ali por curtas intervenções dos companheiros de jornada que vão sendo sucessivamente convocados, enfatiza-se a diferença entre as criações de Lorenz Hart e as de Oscar Hammerstein II que a partir daí lhe sucederá na parceria com o grande Richard Rodgers até ao inefável Música no Coração que virá a ser um grande êxito cinematográfico em 1965.


Em Blue Moon, no entanto, como que em homenagem ao próprio Lorenz Hart, o texto ganha mais força que a música (realmente não pretende ser um filme musical) e logo nos primeiros minutos define-se na diferença com Hammerstein: “O que posso dizer sobre o Oscar? Ele vai chegar aqui a qualquer momento, com os dois metros e meio dele, e, sabe, o Dick escolheu alguém alto de propósito dessa vez, você sabe disso. Mas o que posso dizer sobre Oscar? Ele é tão preso à terra, e convenhamos, a maioria de nós está presa. Mas há momentos, juro por Deus, há momentos no meu trabalho em que criei algo maior do que eu mesmo. (…) As palavras eram maiores que a música, maiores que os personagens que as cantavam, e se aproximavam, por talvez meio segundo, de algo imortal. (…) Oklahoma! vai ganhar o maldito Pulitzer. Eu sei disso. As escolas vão colocar isso de agora até o fim do mundo, porque é tão inofensivo. Mas, a sério, quem quer arte inofensiva?”


Mas, para lá desse triângulo Rodgers-Hart-Hammerstein, naquelas conversas cruzadas da recepção no piano-bar do Sardi’s após a estreia, há também o jogo de sedução não concretizado entre Hart e Elizabeth, estudante de Belas Artes, ele de 47 anos e ela apenas 20, correspondente às cartas encontradas num alfarrabista, e os indícios de uma homossexualidade encoberta que era o máximo que os costumes da época permitiam, como se comenta logo no início na conversa com o barman sobre o Casablanca estreado pouco tempo antes: “Um precedente está sendo quebrado? Como você pode quebrar um maldito precedente? Eles falam inglês lá em Hollywood? Ainda assim, você tem de amar Claude Rains. (…) Sabe por que ele é tão incrível? Ele é um protagonista, e baixo, o que prova que você pode ser os dois. E eu adoro isso. Ele diz para Ilsa: ele é o tipo de homem que, se eu fosse mulher e não estivesse por perto, estaria apaixonada pelo Rick. Pense nisso. Com quem ele acaba no final do filme? Quem está caminhando juntos, de braços dados, na névoa? Você está dizendo que Rick e o Capitão Renault... O que você acha que acontece lá na guarnição da França Livre em Brazzaville? Essa é uma cena que eles não podem mostrar.”


Blue Moon, a canção que dá o título ao filme, foi imortalizada por Sinatra ou Elvis Presley e muitas outras versões, e teve três letras prévias diferentes escritas por Lorenz Hart. A versão final e imortal é, contudo, bem o emblema do próprio Hart, “ambissexual”, “omnissexual”: “Blue moon / You saw me standing alone / Without a dream in my heart / Without a love of my own”.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
VALOR SENTIMENTAL - JOACHIM TRIER (2025)

O VALOR SUBJECTIVO DOS OBJECTOS António Roma Torres   E se de repente, contra todas as expectativas, Valor Sentimental , o sexto filme do norueguês Joachim Trier, saísse com o maior número de oscars n

 
 
 
A GRANDE ELEANOR - SCARLETT JOHANSSON (2025)

A VERDADEIRA HISTÓRIA António Roma Torres   O ser humano é desde sempre um contador de histórias. Mas enquanto vivo ele é sempre também desestabilizador das suas próprias histórias. Nada se pode dar d

 
 
 
NOUVELLE VAGUE - RICHARD LINKLATER (2025)

CINEMA AO AR LIVRE António Roma Torres   Por cinema ao ar livre entenda-se, não a projecção a céu aberto, como a Câmara Municipal organiza no Porto em tempo de verão ou durante muito tempo foi regula

 
 
 

Sobre nós

Este é um blog sobre cinema, particularmente sobre os filmes portugueses entre 1972 e a actualidade e os filmes em exibição nas salas de cinema portuguesas

© 2035 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page