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NOUVELLE VAGUE - RICHARD LINKLATER (2025)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • há 6 dias
  • 5 min de leitura

CINEMA AO AR LIVRE

António Roma Torres

 

Por cinema ao ar livre entenda-se, não a projecção a céu aberto, como a Câmara Municipal organiza no Porto em tempo de verão ou durante muito tempo foi regular no Cinema do Terço, ao Marquês, também na cidade, mas a saída das filmagens dos estúdios para a rua em pequenas equipas e não com os cortes de circulação das grandes produções, que foi uma das características da Nouvelle Vague francesa que o americano Richard Linklater agora nos traz.


Richard Linklater é um cineasta invulgarmente prolífico que em tão contínua produção, mesmo mantendo características do cinema independente, de certa maneira acaba por fazer sombra a si próprio.


Em 2025 por exemplo, além de Nouvelle Vague, apresentou Blue Moon, rodado antes mas ainda inédito em Portugal, como muitos outros dos seus filmes, sobre os bastidores do espectáculo, teatral ou cinematográfico, no caso a estreia em palco do musical Oklahoma!, posteriormente adaptado ao cinema por Fred Zinnemann, que marcou o ocaso da carreira de Lorenz Hart, autor das letras dos musicais de Richard Rodgers, perdido no alcoolismo, e aliás morto precocemente com uma pneumonia pouco depois da estreia dessa produção da Broadway em 1943 que iniciaria uma nova parceria com Oskar Hammerstein II que marcaria êxitos na Broadway e em Hollywood que, por exemplo, foram O Rei e Eu e Música no Coração.


Antes Linklater já realizara Me and Orson Welles (2008), também inédito em Portugal, abordando um teenager envolvido na produção off Broadway de Julius Caesar de Shakespeare, que celebrizou um Welles com 20 anos de idade, na encenação do drama na Itália fascista em 1937, ainda antes da emissão radiofónica de A Guerra dos Mundos que assustou o mundo americano ou da marcante entrada no cinema sendo o citizen Kane com O Mundo a Seus Pés.


Em Nouvelle Vague Richard Linklater vai à procura de Jean-Luc Godard (Guillaume Marbeck) a rodar o seu primeiro filme, O Acossado, em competição com François Truffaut (Adrian Rouyard), seu colega na redacção dos Cahiers du Cinéma que se adiantara na passagem à realização num semi-autobiográfico Os Quatrocentos Golpes, e com a suposta e nunca confortável star americana, Jean Seberg (Zoey Deutch), vinda esgotada da rodagem de Bom Dia, Tristeza às ordens de um poderoso Otto Preminger, sob cuja direcção aliás se estreara no cinema como Joana d’Arc, num argumento de Graham Greene a partir da peça de Bernard Shaw, a debater-se com as regras marcadas de Hollywood à boleia do texto da perturbante Françoise Sagan e longe de conseguir desta mistura desafiante sair-se com sucesso.


Pode estranhar-se que Linklater tenha abordado o argumento pelo lado do pastiche que valoriza a imagem a preto e branco, própria na época desses primeiros filmes de Truffaut e Godard, e principalmente por constituir um álbum indexando o amplo leque de nomes fortes da nouvelle vague e não só, chamados à cena e etiquetados no ecrã com o respectivo nome para além de uma procura óbvia da semelhança física, todo este processo resultando paradoxalmente num efeito de distanciação alheio à proximidade sentimental e romântica que é uma imagem de marca do autor, principalmente desde a excelente trilogia Antes do Amanhecer (1995), Antes do Anoitecer (2004) e Antes da Meia Noite (2013), com o mesmo par protagonista, Ethan Hawke e Julie Delpy, aliás co-argumentistas assumidos nos créditos nos dois últimos casos e nessa qualidade em ambas as vezes nomeados para o oscar, acompanhados com intervalos de quase uma década e encontros dos protagonistas em interrails antecipadamente prometidos, ou ao filme familiar feito ao longo de 12 anos no mesmo intervalo, Boyhood – Momentos de Uma Vida (2014), acompanhando literalmente o crescimento de Mason (Ellar Coltrane) aí tendo mais quatro nomeações ao oscar, além do argumento, melhor filme, realização e montagem, e ainda, vencedora da interpretação feminina em papel secundário ganho por Patricia Arquette, a mãe, ao lado ainda do mesmo Ethan Hawke, o pai, ele também acabado agora de ser nomeado pela interpretação masculina principal em Blue Moon para a cerimónia do próximo dia 15 de Março.


O filme, apesar da nacionalidade americana do autor, é falado em francês o que lhe permitiu até receber o Lumière da melhor realização, espécie de oscar da cinematografia de língua francesa e convoca uma dúzia de cineastas franceses conhecidos, além dos dos Cahiers (Godard, Truffaut, Chabrol, Rhomer, Rivette, Doniol-Valcroze, e o director de fotografia Raoul Coutard), os de anteriores gerações (Mellville, Bresson, Cocteau, Resnais), além do marginal erótico José Bénazeraf e no pólo da bênção referencial do neo-realismo italiano, Roberto Rossellini (lembre-se a ligação a Godard do mestre italiano, nos episódios que os juntam em Ro.Go.Pa.G. ou a colaboração na adaptação do argumento de I Carabinieri – Tempo de Guerra, ambos de 1963 portanto cinco anos depois de 1958 em que O Acossado foi filmado).


Note-se ainda que com estas preocupações de identificação entre actores e personagens Linklater sacrificou a frescura de Seberg-personagem a uma notória diferença de idades de Deutch-actiz, dez anos mais velha, sem que isso seja ao serviço do perfil depressivo toda a vida associado a Jean Seberg ou, pelo conrário, a algum efeito de cura em que a rodagem mais leve proposta pela nouvelle vague a pudesse ter libertado, mesmo tendo em conta o carácter cerebral e racional, associado a Godard.


O filme de Richard Linklater sai-se melhor no que respeita ao retrato de Jean-Luc Godard se cotejado com Godard, O Temível (Le Redoutable, 2017) de Michel Hazanavicius, apesar de tudo um cineasta oscarizado por O Artista (2011) num filme ambicioso sobre o cinema mudo, ainda em vida de Jean-Luc Godard que morreu aos 91 anos em 2022, que optara por um retrato caricatural ácido que o próprio Godard considerou “uma ideia estúpida”, mas a verdade é que o tom pseudo-documental da ficção de Richard Linklater ainda assim deixa uma visão superficial da importância do cineasta suíço, embora culturalmente identificado com o cinema francês, na própria história do cinema.


Se Hazanavicius o retrata ao tempo da rodagem de O Maoísta (La Chinoise, 1967) e do envolvimento romântico com a protagonista Anne Wiazemski, com quem foi casado entre 1967 e 1979, com um recuo no tempo a Pedro, o Louco (1965) a propósito de uma viagem a Cannes, abordando, portanto, a transição do período nouvelle vague da sua carreira para o período revolucionário e, com o Maio 68, colectivista no Grupo Dziga Vertov, Linklater vai ao encontro de Godard na sua dissidência original, do seu primeiro filme O Acossado, num outro entendimento da nouvelle vague, quiçá oposta a Truffaut, que se traduz por uma certa indisciplina aparentemente pouco profissional, visível no conflito permanente com o produtor, Georges de Beauregard (Bruno Dryfürst), mas parecendo superar a distância de uma Jean Seberg ainda a recuperar da amargura de Bom dia, Tristeza com Otto Preminger e do cinema americano que a nova geração de críticos e agora cineastas pretendia substituir, na cumplicidade jovial e de verdadeiro amor ao cinema com a própria câmara na rua e o director de fotografia Raoul Coutard (Matthieu Penchinat).


Nouvelle Vague é com certeza um belo exercício de cinefilia, mas passou ao lado de se constituir num grande filme.

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