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CRIME EM DIRECTO - GUS VAN SANT (2025)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia



UMA ARMA APONTADA AO CAPITALISMO

António Roma Torres


Gus Van Sant é de certa maneira um cineasta camaleónico capaz de filmar com igual eficácia diferentes ambientes e lógicas procedimentais ou até o ar do tempo de significativas décadas do passado, sempre procurando adaptar-se bem à lógica do material que tem pela frente.


Já teve duas nomeações para o oscar de melhor realização por O Bom Rebelde (1997), com o prémio de melhor interpretação secundária para Robin Williams e melhor argumento original para os protagonistas estreantes Matt Damon e Bem Affleck em nove nomeações, e Milk (2008), com o prémio de interpretação principal para Sean Penn e de melhor argumento original em oito nomeações.


Mas também já dirigiu exemplos brilhantes de um novo cinema queer em No Trilho da Droga (1989) e A Caminho de Idaho (1991), filmes num ambiente juvenil dissolvente e saturado em Elefante (2003) ou Paranoid Park (2007), ou os thrillers fracassados, Disposta a Tudo (1995) ou Psycho (1998), um estranho remake hitchcockiano, plano-a-plano e a cores.


Desta vez Dead Man’s Wire, que à letra seria O Fio do Homem Morto, e em português se tornou Crime em Directo (2025) enfatizando mais a plateia simultânea à distância que um mundo progressivamente mais televisionado estabeleceu, veio parar-lhe às mãos através do produtor Cassian Elwes, que tinha trabalhado com ele em Gerry (2002), quando o alemão Werner Herzog e Nicholas Cage se afastaram do projecto.


Sete anos depois do seu anterior filme, Não Te Preocupes, Não Irá Longe a Pé (2018), com alguns trabalhos televisivos de permeio, Van Sant pegou no filme aparentemente apenas para cumprir os mínimos, ou seja, um filme assumidamente anacrónico baseado num caso real, de um sequestro com tentativa de extorsão, acontecido em 8 de Fevereiro de 1977, encenado no maior verismo de reconstrução, refazendo com actores o que já tinha sido objecto de um documentário, com um título subliminarmente diverso, Dead Man’s Line (2018), de Alan Berry e Mark Enochs, que aliás foram creditados no genérico do presente filme como consultores históricos.


Mas a velha teoria do cinema de autor faz-nos supor que o talento acaba por vir ao de cima mesmo quando o seu investimento na execução parece menor. Crime em Directo não aposta na construção dramática, não escolhe nenhum personagem para exprimir um ponto de vista que o realizador pretenda privilegiar, parece simplesmente deixar acontecer o que está perante os nossos olhos.


E o que é que Gus Van Sant afinal nos dá a ver?


Repare-se que o polícia principal, Michael Grable (curiosamente interpretado pelo irmão do produtor, Cary Elwes), parece pouco voltado para a acção limitando-se a acompanhar como observador à distância o que se passa, a repórter da televisão Linda Page (Miyha’la) casualmente no local, parece apenas procurar uma oportunidade de valorizar a carreira, e o apresentador de um programa de rádio matinal, Fered Temple (Colman Domingo novamente excelente entrando no filme também à última hora depois de duas nomeações para oscar em Rustin e Sing Sing), é envolvido na acção por o sequestrador ser um radio-ouvinte apreciador da sua empatia telefónica matinal, e M. L. Hall (interpretado por Al Pacino, cuja função principal no filme é celebrar indirectamente o 50º aniversário do paradigmático Dia de Cão dirigido por Sidney Lumet em 1975 sobre um mal sucedido assalto de banco que se torna um confronto até à exaustão entre os assaltantes que sequestram clientes retidos na agência bancária e os polícias que os querem obrigar a render-se), é o magnata desapiedado, em férias à distância, que quer alhear-se do confronto.


E, claro, no foco principal de atenção estão os dois personagens, ligados em toda a acção pelo fio chamado ao título original, real mas também narrativo, que liga ao “homem morto”,  Richard Hall (Dacre Montgomery), o filho do magnata aparentemente mais conciliador, a caçadeira de canos serrados que lhe está apontada e disparará a qualquer percalço, empunhada pelo revoltado Tony Kiritsis (Bill Skarsgård), o cliente em manifestação exemplar contra as armadilhas montadas pelas empresas de crédito e os agentes imobiliários que ludibriam os trabalhadores desprotegidos.


Gus Van Sant sabe montar uma espécie de tempo suspenso em que paradoxalmente nada acontece e apenas se gera uma expectativa que começa a tornar-se tóxica. Era o que se passava por exemplo em Elefante, embora aí se fizesse notar uma espécie particular de tédio que costuma caracterizar um período particular da adolescência e do meio escolar.


Crime em Directo é um falso filme de acção e de aí preferirmos o título original que nos propõe falar de “homens mortos” que não têm alternativa a tentar sobreviver até que um percalço inusitado os faça mudar de rota ou desaparecer, como se fosse uma regra cósmica inscrita na natureza.


Curiosamente o filme, embora preparado num longo tempo anterior, foi rodado nos vinte últimos dias de Janeiro de 2025, pouco depois do assassinato do CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson por Luigi Mangione em 4 de dezembro de 2024, e coincidindo também com a tomada de posse de Trump no segundo mandato como Presidente dos Estados Unidos, que aliás foi alvo de duas tentativas não consumadas de assassinato em 13 de Julho e 15 de Setembro de 2024 num regresso do tipo de acção política mais frequente até à década de sessenta que viu o JFK e o irmão Robert Kennedy serem assassinados, e foca-se de certa forma na violência política como acto discursivo embora este crime em Indianapolis nos anos setenta não tenha tido quaisquer consequências sangrentas.


Gus Van Sant não parece ter tido a preocupação de explorar a construção narrativa do sequestro e da conferência de imprensa do sequestrador que culmina com a sua rendição e perceber como fora inconsequente a sua aparente vitória, mas teve um particular empenho na imagem cinematográfica dos anos setenta e na caracterização e casting dos personagens por forma a ser fiel ao tempo histórico que retrata.


O filme não interioriza a relação de proximidade entre Tony e Richard durante as 63 horas que dura o sequestro, nem carrega as interpretações com alguma exposição psicológica inclusivamente do chamado síndrome de Estocolmo, mas deixa dois apontamentos curiosos sobre os momentos de proximidade em que alguma coisa nova pode ser construída, e a mudança pode acontecer, e o afastamento que permite a constatação homeostática que parece garantir uma continuidade sem saídas: M. L. Hall comenta o grande plano dos rostos de Tony e Richard no momento de maior tensão observando como estão húmidos os olhos do primeiro e secos os do seu filho educado para conter as emoções; e passados os anos de prisão, por motivos psiquiátricos e não numa condenação formal, Tony e Richard trocam os olhares à distância no encontro casual numa padaria mas afastam-se como se nunca se tivessem conhecido.


Gus Van Sant assina assim um belo filme político a ler no contexto contemporâneo, não numa perspectiva militante, mas como um pertinente tempo reflexivo.

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