OS DOMINGOS – ROMARIA – SIRÂT – EL CAUTIVO
- António Roma Torres

- há 22 horas
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ESPANHA, ENTRE ONTEM E AMANHÃ
António Roma Torres
A exibição simultânea de quatro filmes espanhóis nas salas de cinema portuguesas permite apreciá-los em conjunto e tirar daí algumas conclusões. Estranhamente o espectador luso não está muito familiarizado com a produção cinematográfica do país vizinho. Conhecemos bem Buñuel, Saura, Almodóvar, em gerações e períodos históricos bem distintos. Mas do cinema de Espanha, ou das regiões autónomas que compõem o reino, pouco se sabe por cá. Não há muito o El Mundo titulava que “produzem-se 300 filmes por ano, mas apenas doze ou quinze interessantes”, mas o El País observa que o público vai significativamente menos às salas de cinema, embora o consumo em casa tenha aumentado. As últimas notícias destacam, porém, que pela primeira vez em largas décadas a Espanha tem a concurso três filmes para a Palma de Ouro do próximo Festival de Cannes.
Analisemo-los então, até em ordem inversa do seu mérito ou êxito para finalizarmos em toada optimista.
Alejandro Almenábar, nascido no Chile de mãe espanhola, mas em Espanha desde um ano de idade, ficou cativo de uma desmedida ambição e pouco critério nas escolhas no percurso, à sombra do grande nome da literatura em El cautivo, estupidamente vertido para um desnecessariamente óbvio Cervantes antes de Dom Quixote. O filme propõe-se encenar quatro anos de cativeiro em Argel com poucos pormenores biográficos conhecidos anteriores à sua carreira literária. A habilidade de contar histórias, literalmente como condição de sobrevivência, à letra praticada por Xerazade no contexto orientalista, permite criar um ambiente difuso, imaginativo, por vezes onírico. Almenábar recria com alguma maestria o encontro entre o cristão e o mouro num certo encantamento que a violência e brutalidade não esmaga completamente e permite adivinhar um mundo novo a despontar que a literatura de Cervantes também veio preencher, abrindo horizontes ao romance de cavalaria e permitindo à humanidade outros graus de consciência. A narrativa de Almenábar é deslizante, ambígua, sedutora, pressupondo diferentes autores e graus de certeza, inclusivamente na vertigem queer do encontro entre o pobre prisioneiro, futuro escritor Miguel de Cervantes (Julio Peña), que haveria mais tarde de descobrir novas maneiras de contar, com ironia e maior aproximação humanista, a valentia fidalga e o humor popular, e o seu captor otomano Paxá Hassan (Alessandro Borghi), também escritor e filho de um Barbarrossa que conquistara Argel. Mas o realizador espanhol espraia-se em múltiplos devaneios e perde a mão sobre os fios que podiam conduzir o filme a um melhor porto.
Sirât, do galego (embora nascido em Paris) Oliver Laxe, é também uma incursão no norte de África, agora em Marrocos e na modernidade, numa marcha de camiões em paisagens desabitadas a pretexto de raves envolventes, longas festas de música eletrónica, techno ou psytrance, a outro nível também hipnótico num abandono aos próprios sentidos que de repente se pode tornar ameaçador, e onde aparece desencontrado Luís (Sergi Lopez) um homem de meia-idade com Esteban (Bruno Núnez Arjona), seu filho menor, em procura de uma jovem também sua filha, há meses desaparecida numa festa desse género. O filme desenvolve-se sob uma mão mais segura, particularmente no domínio técnico da fotografia, montagem ou trabalho de som, e modela numa odisseia de trabalhos o ambiente das misteriosas perseguições do cinema americano dos anos setenta, de Dois vultos na paisagem (1970) de Joseph Losey ou Fim de semana alucinante (1972) de John Boorman, até, já perto do fim, o filme desembocar literalmente num campo minado, imagem provavelmente metafórica de um clima da Espanha e do mundo actual.
De certa maneira o clima é análogo nas festas de rua nas noites de Vigo, na Galiza, que abrem a uma viagem onírica ao passado dos pais, mortos na juventude no ambiente de droga e SIDA dos anos oitenta, a que vai conduzir a peregrinação em busca das suas origens familiares, com claras reminiscências da vida pessoal da realizadora, de Marina (Llúcia Garcia), a protagonista de Romaria da catalã Carla Símon. Marina pretende candidatar-se a uma bolsa numa escola de cinema, mas para isso precisa que os avós testemunhem a filiação dela nos documentos de identidade do seu pai, e esse reconhecimento de pertença familiar acaba por ser um traço comum a estes quatros filmes, provavelmente numa hiperconsciência das questões identitárias na Espanha actual. O filme de certa maneira perde-se também pelo caminho, onde o interaccional familiar se conjuga com dificuldade na vivência interior da personagem, e na identificação forçada com o imaginário sobre os pais, colhido no diário da própria mãe.
Mais seguro aparentemente, foi o caminho percorrido pela basca Alauda Ruiz de Azúa em Os Domingos, num retrato sensível de uma família da classe média confrontada com uma jovem, também no final do secundário e igualmente órfã, mas apenas de mãe, que deseja professar num convento de clausura, muito valorizado pelas interpretações particularmente das personagens femininas. Ainara (Blanca Soroa) é uma jovem de 17 anos que pede ao pai, Iñaki (Miguel Garcés), autorização para passar um período num convento de freiras de clausura para realizar um “discernimento” sobre a vocação religiosa que julga sentir. O pai parece não se opor embora não acolha com entusiasmo a ideia da filha, mas a tia, Maite (Patricia López Arnaiz), que exerce uma protecção maternal desde a morte da cunhada, tenta contrariá-la energicamente, enquanto vive uma relação meio adormecida com o companheiro, Pablo (Juan Minujín), e um filho pequeno. Pode surpreender a opção por uma temática religiosa, quiçá obsoleta num meio social que procura um futuro eventualmente mais promissor para as novas gerações, mas a realizadora não se afirma propriamente interessada pela religião que em todo o caso trata com todo o respeito, nomeadamente nas conversas da jovem com a madre Isabel (Nagore Aramburu), superiora do convento. O argumento é desenvolvido com grande segurança e excelentes interpretações do elenco principal, embora os dois actores e a jovem Blanca, não profissional, na categoria de revelação, tenham falhado o Goya para que todos foram nomeados, mas só as interpretações femininas da tia (principal) e da madre (secundária) alcançaram, excepção talvez para a cena da revelação de Deus perante a jovem ajoelhada junto ao altar, algo exagerada. Mas o cinema é também a forma de contar e não somente a figuração mais ou menos real da intriga e há outros momentos mais contidos ou matizados, mas bem expressivos e muito pertinentes no retrato psicológico, como o beijo intenso de Ainara no seu quarto em casa com um colega de coro. O filme principalmente vai se encaminhando para essa oposição entre a jovem e a tia que culmina nas cenas finais com esta olhando à distância o companheiro e o filho que aparentemente abandonara. Na realidade o que o filme parece querer acreditar é na renúncia parcial onde pode residir o compromisso com algo real e maior que se pretende abraçar em liberdade e de que o senso comum de um comportamento adulto sem risco nem alegria parece ter já desistido.
Os quatro filmes espanhóis que uma indústria cinematográfica de muito maior dimensão que a portuguesa nos pode mostrar é que mesmo num cinema de grande público pode surgir a pertinente reflexão de um momento existencial colectivo em que toda a esperança parece perdida.
Repare-se que estes quatro filmes tiveram significativas nomeações para os prémios da Academia Espanhola, Goya, Os Domingos (13), Sirât (11), El Cautivo (7) e Romaria (6), tendo recebido, Sirât seis prémios (melhores fotografia, montagem, direcção artística, supervisão de produção, som e música), Os Domingos cinco prémios (melhores filme, realização, actriz principal, actriz secundária e argumento original) e El Cautivo, um prémio (melhor maquilhagem e cabelos).


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