O ESTRANGEIRO - FRANÇOIS OZON (2025)
- António Roma Torres

- 4 de mai.
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Atualizado: há 2 dias
ENTRE A INDIFERENÇA E O ABSURDO A MORTE ESPREITA
António Roma Torres
O Estrangeiro de François Ozon (2025) é a primeira versão francesa da novela de Albert Camus (1942), sendo as anteriores do italiano Luchino Visconti (1967) e do turco Zeki Demirkubuz (2001).
Diga-se também, que a tradução do título francês, L’Etranger, em português (e noutras línguas) poderia ser O Estranho, embora tenha sido a presente a utilizada em todas as traduções em língua portuguesa, do romance e agora do filme.
Algumas alternativas de tradução têm também sido questionadas para a célebre frase de abertura do romance, Aujourd'hui, maman est morte. No filme a notícia é, no entanto, objectiva e surge num telegrama enviado pelo lar onde vivia a mãe.
Daí a nova epígrafe em que parece consistir estoutra frase, Hoje, matei um árabe, não directamente tomada do texto original.
Aliás ao contrário do texto de Camus, em que o árabe morto não tem nunca um nome, na versão de Ozon ele chama-se Moussa Hamdaoui (Abderrahmane Dehkani), identificado na sepultura da cena final, contrariando a anonimização do Árabe à época criticada no texto de Camus, e habilmente no filme referida a um outro livro, Meursault, contre-enquête, romance do argelino Kamel Daoud publicado em 2013, recriando a história contada pelo seu irmão, que no filme se torna uma irmã Djemila (Hajar Bouzaouit), afinal a amante batida de Raymond Sintés (Pierra Lottin), no romance também anónima, e agora não uma narradora como no texto de Daoud, mas a que disputa num ponto de vista indígena, como a linguagem da época se referia aos argelinos locais, o de Marie (Rebecca Marder), namorada de Meursault (Benjamin Voisin), no lugar reservado ao público na audiência em tribunal, e no final se inclina perante a sepultura do irmão, acentuando, portanto, uma leitura anticolonial traumática para os franceses, na então chamada Guerra da Argélia.
Mas na realidade estas aparentes alterações aprofundam o texto de Camus numa fidelidade ao seu sentido que poderíamos qualificar de radical, quase impossível de ser dito, mas remete a uma impossibilidade de dizer, mas não de agir enquanto ser vivo (ou seja antes de morrer, na lógica do texto).
Aliás logo nas primeiras páginas do livro ou cenas do filme, Meursault estranha que o patrão a quem justifica os dois dias de luto não lhe dê os pêsames. “Com certeza o fará, depois de amanhã, quando me vir de luto”. Chega a dizer-lhe: “a culpa não é minha”. E interiormente recrimina-se por o ter dito.
Parece que o texto reflexivo de Albert Camus (1913-1960), do mesmo ano de O Mito de Sísifo (1942), poderá ter sido valorizado excessivamente numa perspectiva existencialista, e numa obsessiva comparação com Jean-Paul Sartre (1905-1980), e particularmente o seu “teatro de situações” e o pendor moralista militante, que a morte precoce de Camus num acidente de viação não ajudou a que fossem aprofundadas pelos próprios, nas suas diferenças. Aliás ambos ganharam o Nobel, Camus em 1957 e Sartre em 1964 recusando-o, tendo-se rompido em 1952 a amizade entre ambos mais por diferente opção política em relação ao comunismo soviético e à Guerra Fria do que por diferenças existenciais entre o absurdo e a náusea que os caracterizariam.
A relação de Meursault e Marie começa muito naturalmente e parece fluir bem, apesar de ter apanhado Meursault logo depois do enterro da mãe. Camus escreve que foram ver um filme de Fernandel. Ozon tem de ser mais concreto: escolhe o filme, Schpountz, o Anjinho (1938), e a frase como que premonitória no enredo de O Estrangeiro, "todo o condenado à morte será decapitado".
Aí também parece que as características de comunicação se tornam de alguma forma embaraçantes. Mersault parece entender que só deve manifestar um sentimento se tiver a certeza que é verdade. E então a dada altura Marie pergunta-lhe se ele quer casar com ela. Ele diz que “tanto lhe fazia, mas que se ela de facto queria casar, estava bem”. “Ela quis então saber se ele gostava dela. Ele respondeu que isso nada queria dizer, mas que julgava não a amar. Maria calou se durante uns instantes e olhou-o em silêncio. Depois, falou. Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual estivesse relacionado do mesmo modo, ele teria aceitado uma proposta semelhante. Ele respondeu que possivelmente. Perguntou ela então de si para si se ela gostaria dele, mas, sobre esse ponto, como poderia ele saber alguma coisa? Depois de mais uns instantes de silêncio, ela concluiu que ele era uma pessoa estranha, que gostava dele se calhar por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrários. Como ele se calasse, por não ter nada a acrescentar, tomou-lhe o braço a sorrir e declarou que queria casar com ele ao que ele respondeu que sim, logo que ela quisesse”.
Ozon segue textualmente as palavras de Camus: falar desta forma é sinal de honestidade ou clara manifestação de indiferença?
E é então essa interrogação (moral?) que vai preocupar a acusação e a defesa. Dirimem-se os argumentos, não sobre as circunstâncias do crime, mas sobre os sentimentos de Meursault perante a morte da mãe! E Mersault é condenado à morte na guilhotina.
É bom lembrar que Camus escreveu um outro texto em 1957, ano em que recebeu o Nobel, Reflexões sobre a Guilhotina, precisamente de oposição à pena de morte que aliás só viria a ser abolida em França em 1981, após a eleição de Miterrand, tendo sido a última execução em 1977 (também a última na Europa Ocidental), e proibida pela constituição por uma revisão de 2007. Na Argélia, agora independente, ainda vigora a pena de morte embora haja uma moratória desde a última execução acontecida em 1993.
A encenação da parte final do filme de Ozon é o momento mais interessante desta adaptação que parece acompanhar muito bem a verdadeira intenção filosófica, humanista e pacifista de Camus e se expressa no conteúdo dramático e brilhante trabalho de imagem e colocação da câmara, e excelentes interpretações dos actores, no diálogo de Meursault com o capelão (Swann Arlaud) que o tenta levar a uma expressão de arrependimento que evite a condenação eterna que a fé abusivamente antecipa.
Se a prévia oposição no tribunal entre o Defensor Oficioso (Jean-Claude Clichet) e o Procurador (Nicolas Vaude) parece um duelo a que Meurseult permanece alheio e denuncia uma justiça onde a obsessão com fazer sentido aparentemente psicologista amplia a desconexão do acusado (que curiosamente vai no mesmo sentido da abordagem de Bakhtin sobre a Poética de Dostoievski, nomeadamente em Crime e Castigo), perante a sua resposta “por causa do sol” ao interrogatório do Juiz Presidente (Christophe Mallavois) sobre o motivo do crime parece definitivamente ter-se o caldo entornado, ou seja, seriamente diminuídas as chances de escapar à mais pesada das condenações. No entanto o espectador sabe que a navalha aberta pelo Árabe (no romance) ou Moussa Hamdaoui (no filme) ao projectar o reflexo do sol nos olhos de Meursault potenciando a confusão cerebral que o calor excessivo comporta, pode ter um valor equivalentemente agressivo. E demais o motivo pedido não tem de ser de ordem interna como o sistema judicial preconcebidamente postula, nem a alternativa é entre condenar ou absolver, mas antes a gradação da culpa na sua pena máxima.
E aqui começa também um paralelo entre o final de O Estrangeiro, potenciado nas características cinematográficas em que a opção de Ozon se aproxima da herança de Dreyer ou Bergman ou outro cinema filosófico-religioso de Bresson, por exemplo, sempre principalmente nos seus filmes em preto e branco, e o Diálogo Entre um Padre e um Moribundo escrito pelo Marquês de Sade enquanto encarcerado no Château de Vincennes em 1782 a que, talvez por menos conhecido, tem sido dada menor atenção do que à filiação, mais ou menos reconhecida, em Victor Hugo (O Último Dia de um Condenado, 1829) e Sthendal (O Vermelho e o Negro, 1830) de acordo com o excelente ensaio de Stephan Rupp, Diálogo entre um Padre e um…Estrangeiro? (2003).
Camus evidencia um viés que com facilidade invade o pensamento católico que hipervaloriza o arrependimento desarticulando-o do propósito firme de emenda, irrelevante para um condenado à morte (ou um moribundo?), como condição do perdão e que trabalha em favor de uma culpa estéril, semelhante ao encarniçamento de Pio IX abordado em O Rapto de Marco Bellochio, actualmente ultrapassado no comportamento papal.
Mas principalmente torna-se muito relevante actualmente na saúde mental e nas terapias que vão ganhando tracção, como hoje se diz, ao longo da história, que consiste em impor uma visão acabada de si mesmo contra a qual Bakhtin propôs o inacabamento (nezavershennost) como a condição de estar vivo até ao momento em que por fim morra (ou adoeça somatica ou mentalmente).
Naturalmente numa lapalissada vulgar, viver é o contrário de estar morto. Por isso não são apenas os condenados judicialmente à morte que vão morrer como Mersault argumenta com o capelão. O que pode ser angustiante. Mas não justifica que se declare morto, definitivamente definido, antes de o estar.
Meursault, ao recusar a manipulação da verdade, escolhe a "revolta". No Mito de Sísifo, Camus diz que a revolta dá preço à vida. Ao manter-se fiel à sua verdade sensorial e recusar as "definições-morte" da moral, Meursault, qual Sísifo, mantém a sua pedra em movimento até ao último segundo.
E simultaneamente demonstra ironicamente como a insensibilidade da sociedade que pode justificar a pena de morte, ao dar ao Estado um tal poder, é mau antídoto para a suposta insensibilidade do protagonista perante a morte da sua mãe.


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