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ENTRONCAMENTO - PEDRO CABELEIRA (2025)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • 5 de abr.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 6 de abr.


FORA DE CAMPO

António Roma Torres

 

Talvez Verão Danado (2017) tenha sido para Pedro Cabeleira uma falsa partida como nas provas de atletismo. O certo é que agora, a sua segunda longa-metragem, Entroncamento (2025), passados oito anos, surge depois de um longo processo de gestação. E de permeio apenas uma curta-metragem, By Flávio (2022), não negligenciável na ainda obra mínima do realizador, prémio Sophia 2023 de melhor curta de ficção, teve direito a estreia em sala em 2024, incluída num conjunto, intitulado Que Mulheres Serão Estas?, com Um Caroço de Abacate de Ary Zara e As Sacrificadas de Aurélie Oliveira Pernet.


As duas longas apresentam de certa maneira uma continuidade, aparentemente fundadas na experiência de vida do realizador: no verão de 2017 aos 25 anos concluída a formação escolar, perguntando-se como o seu protagonista Chico (Pedro Marujo), na noite lisboeta, de bebedeira e ganza, “depois de acabado o curso o que é que vocês estão a pensar fazer?”, com o ruído ambiente abafando ou confundindo a sua voz – “não consigo ouvir, tens de falar mais alto” - ou como Maria (Lia Carvalho) se não é melhor abalar para Londres; agora aos 34 anos em diálogos trepidantes que se atropelam logo na primeira cena de barganha clandestina do comércio de droga na estranheza do regresso à sua terra natal, a cidade nó ferroviário, Entroncamento, onde se cruzam todos os caminhos.


Em ambas as longas-metragens Pedro Cabeleira cultiva um cinema de imersão, crónica ou reportagem, mesmo se no plano do diálogo é assumidamente de ficção, sendo ténues particularmente em Verão Danado os sinais de um percurso narrativo ou de atenção a um desenvolvimento dramático. A câmara está próxima sem deixar sinais da existência de um espaço off postulado, o plano podendo cortar no enquadramento parte de um rosto como numa fala do protagonista cigano Gilinho em Entroncamento. Ou em Verão Danado o registo de som pode ser exterior, às vezes sendo a evidência do smartphone ou mesmo o registo das imagens, que marca a relevância do campo off.


A curta By Flávio, acessível na Filmin, pode servir de guia para a leitura das duas longas de Pedro Cabeleira: o olhar da criança, director virtual eventualmente no futuro, em off no shopping, tornado presente através da mãe Márcia (Ana Vilaça), actriz e directora no plano mental de um filme, sinalizado pelo smartphone capaz de trazer como de um outro planeta o papel complementar eventualmente sonhado, de Da Reel Chullz (Tiago Costa), um rapper do espectáculo. Como em espelho da relação parental que actriz e realizador assumem fora do plateau.


Além de Gilinho (Henrique Barbosa), saído da prisão e, saber-se-á depois, afastado da família, a companheira Nádia (Cléa Diára), cabo-verdiana portuguesa com uma filha a seu cargo, ou Laura (Ana Vilaça), vinda sem aparentes saudades do bairro do Cerco do Porto - outro emblemático lugar de exclusão - e as outras personagens que vêm à cena sucessivamente, são todos de certa maneira estrangeiros, exilados, chegados de fora. Ou atirados para dentro, numa proximidade tóxica que parece impelir á eliminação, com ameaças de morte, apesar de tudo não levadas consequentemente à letra, num encontramento duro, violento, como paronímia da cidade outrora conhecida pelos fenómenos estranhos surgidos no seu seio.


A exclusão social e o preconceito gerado pelas diferenças estão longe de ser fenómenos raros, mas devem ser noticiados principalmente por quem acredita que todos devemos ser iguais em deveres e direitos. Entroncamento de Pedro Cabeleira mostra, num pequeno núcleo de personagens, oposições e divisões que podem tender a um grande impacto de violência social, mas não deixa de dar maior ênfase a uma inquietação, talvez comum a toda uma geração que assume agora a chegada a uma idade adulta, que se expressa também nos cineastas portugueses.


Sessenta anos atrás Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha ou Belarmino (1963) de Fernando Lopes eram retratos de Lisboa como cidade afluente onde personagens que o cinema português identificava acabavam de chegar ou ser subitamente descobertos.


A geração seguinte chegou já em liberdade com o que chamei os verdes anos oitenta entre o João Canijo de Três Menos Eu (1987) e o Joaquim Pinto de Uma Pedra no Bolso (1988) até ao Pedro Costa de O Sangue (1989) ou Casa de Lava (1994) e a Teresa Villaverde de A Idade Maior (1991) e ao encerramento tardio que constituiu Glória (1999) de Manuela Viegas.


A “geração X" ou "esquecida" chega à ficção com mais idade e maior consciência social, mas curiosamente em meio insular, seja britânico ou açoriano, através de Marco Martins após Alice (2004) em Great Yarmouth – Provisional Figures (2022), Ana Rocha de Sousa em Listen (2020) ou Cláudia Varejão em Lobo e Cão (2022).


Os millennials despontam agora na periferia lisboeta, precocemente com João Salaviza em Montanha (2015), cedo desviado para o tropicalismo brasileiro, mas agora a vir publicamente terçar armas pelo Entroncamento, precedido aliás pelo luso-suiço Basil da Cunha em Até Ver a Luz (2013), mas parecendo agora definitivamente afirmados na dessensibilização pós-pandémica ao contágio, seja no nomadismo digital de Baan/Casa (2023) de Leonor Teles, seja na permeabilidade entre o espaço doméstico e o público de Entroncamento (2025) de Pedro Cabeleira, onde aliás Leonor Teles assume a direcção de fotografia como nos seus dois anteriores, Verão Danado e By Flávio.


Para Pedro Cabeleira, como para Leonor Teles, a caixa hexagonal que a tela cinematográfica pressupõe, limitada pelos quatro lados do enquadramento na projecção, mas também pelos supostos limite posterior do plateau e anterior da própria objectiva, separando assim o campo in e off e constituindo um apparatus mental isolado pelo efeito de sutura que sustenta não apenas a impressão de realidade mas o pressuposto psicologista e intimista dos personagens, desenvolvida na sábia teoria cinematográfica pós-estruturalista de Noël Burch e seus seguidores, parece abrir algumas brechas e como que define um não-lugar.


Em Entroncamento Pedro Cabeleira cria uma continuidade sonora musical tipo DJ que já experimentara abundantemente em Verão Danado e que é até, agora menos autónoma, mas mantém a tensão nos diálogos, apontando até para um encontro confrontacional que, no entanto, não chega a resolver-se ao modo por exemplo, noutros tempos ou noutros espaços, do western americano ou do musical West Side Story.


Isso mantém o espectador sempre num modo reflexivo, que permite sustentar alguns momentos em que o enquadramento de certa forma evidencia a câmara, por exemplo no contra-campo frontal de Nádia com a professora da filha que lhe devolve a responsabilidade da postura de exclusão, ou no contra-campo de Gilinho com a mãe que parece esquiva às queixas sobre o alheamento dos irmãos, ou num suave contre-plongée do diálogo da filha de Nadia com Gilinho sobre as suas origens ciganas.


Há um Entroncamento real a que o filme não pretende ficar alheio, mas está longe de constituir o ponto privilegiado de observação. A origem da cidade como estação ferroviária de cruzamento é relativamente recente e, portanto, o cenário parece o ideal para encenar o dilema da identidade que diferencia e da igualdade que não se esquece. Nas últimas eleições autárquicas a câmara foi uma das três conquistadas pelo Chega a uma anterior hegemonia socialista que aliás participou até no financiamento do filme. Mas o filme comunica facilmente com os líderes autarcas num efeito de geração que é dos seus mais claros pontos de afirmação.


Entroncamento, porém, procura encontrar formas de expressão que acrescentem alguma coisa à mera documentação da realidade e que não aposte na verossimilhança e emotividade psicológica no trabalho de argumento ao estilo inglês de Ken Loach que privilegiam por exemplo Listen de Ana Rocha de Sousa, ou On Falling (2024) de Laura Carreira nascida já nos anos 90 como Cabeleira ou Teles e, portanto, com maior afinidade geracional. Há uma identidade em risco de dissolução precisamente pelo desenraizamento que igualiza um futuro ainda por vir.


Pedro Cabeleira tem mostrado, por exemplo nas entrevistas (a Pedro Portugal e a André Filipe Antunes I e II) com que acompanhou a estreia do filme, um modo de trabalho de desenvolvimento lento em diferentes fases de uma longa produção desde as várias alternativas na escrita de argumento à montagem difícil de encerrar após a rodagem, que permitem suspeitar de uma excessiva ponderação que pode tender a repetir falsas partidas e hesitações que lhe embaracem o percurso criativo. Seria desejável que a estreia de Entroncamento lhe abra as possibilidades que o seu talento, já expresso, claramente merece.

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