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LA GRAZIA - PAOLO SORRENTINO (2025)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

O PRESIDENTE E O SEU LABIRINTO

António Roma Torres

 

Não deixa de causar alguma estranheza a decisão da distribuição do filme em Portugal que manteve o título original La Grazia em vez da sua tradução portuguesa A Graça, sendo que em ambas as línguas, como aliás também no inglês Grace, a palavra tem o triplo significado que o filme tenta glosar: a graça como poder do Estado ou da justiça, de perdoar alguma pena ou condenação; a graça, até eventualmente, divina que cobre determinado comportamento humano; e a graça como elegância de atitude na saída de funções e regresso à vida comum por exemplo num final de mandato nas mais altas funções de Estado ou de governo, ou mais ainda o estado de graça que acompanha o início dos mandatos nesse nível da vida democrática.


O presidente, fictício embora com alguns traços comuns ao actual em Itália, Mariano de Santis (Toni Servillo, em mais um brilhante desempenho dirigido por Paolo Sorrentino) que protagoniza o filme está em final de mandato, é um fervoroso católico e hesita em promulgar uma lei da eutanásia ou indultar duas penas severas em crimes de homicídio no contexto doméstico com receio de ensombrar a nível popular o prestígio do cargo e do seu desempenho até então.


Na realidade poderia ser Sergio Mattarella (o actual presidente italiano oriundo da democracia cristã) ou o anterior Giorgio Napolitano (oriundo do partido comunista do compromisso histórico, mas igualmente levado a prolongar o mandato numa reeleição indirecta por colégio eleitoral incluindo as duas câmaras, em que acabaria por não concluir o mandato, pela reconhecida popularidade e a dificuldade de encontrar uma personalidade que facilmente possa preencher o vazio), ou lá mais para trás os também democratas-cristãos Oscar Luigi Scalfaro e Francesco Cossiga ou o prestigiadíssimo socialista Sandro Pertini.


Os mandatos do presidente italiano são de sete anos e não são eleitos por sufrágio universal, mas porque o retrato que o filme pretende fazer é o das democracias liberais neste tempo e não é tão especificamente italiano, poderia ser até Marcelo Rebelo de Sousa, num regime que sendo semi-presidencialista como o francês, mas numa versão que modera mais os poderes presidenciais, ao contrário da república francesa, e se aproxima mais do parlamentarismo italiano ou alemão. Diga-se a propósito, que talvez seja intencional a escolha em toda a cena inicial de recepção a um caricatural presidente de Portugal (Cesare Scova).


Certo é que já houve tempo em que Paolo Sorrentino apontava a sua câmara, ficcionista e não documental, a primeiros-ministros italianos reais, existentes, que são quem na realidade governam em Itália, como Giulio Andreotti (Il Divo – A Vida Espectacular de Giulio Andreotti, 2008) e Silvio Berlusconi (Silvio e os Outros, 2018), ambos aliás interpretados também pelo polifacetado Toni Servillo.


Mas há uma diferença entre governar e presidir e o personagem Mariano de Santis vive na realidade num espaço impossível, um Palácio do Quirinal, residência presidencial onde só uma parte foi filmada, que parece pairar acima da cidade dos homens em que a política é feita, e que é habilmente complementada com salões, jardins e terraços de outros espaços, incluindo os sumptuosos Castello del Valentino, Castello di Moncalieri (Património Mundial da UNESCO) e o Palazzo Chiablese num cenário virtual capaz de acolher os diálogos, com a filha Dorotea de Santis (Anna Ferzetti), visivelmente alusiva a Laura Mattarella que desempenha funções de primeira dama na presidência do pai viúvo, ou com rivais políticos que o cercam, como o candidato a sucessor Ugo Romani (Massimo Venturiello) ou militares que o assessoram como o coronel Massimo Labaro (Orlando Cinque) ou o general Lafranco Mare (Giuseppe Gaiani), ou a amiga de longa data Coco Valori (Milvia Marigliano), íntima da falecida esposa e conhecedora dos seus segredos que alimentam um ciúme bem mais vivo que a solenidade decrépita das suas funções prestes a terminar, ou mesmo supostos solilóquios solitários, e em geral um discurso testamentário que contrasta com o acanhado ambiente doméstico a que regressa no final.


Com algum humor Sorrentino intercala um diálogo presidencial para o espaço sideral com um astronauta italiano em órbita, onde a gravidade não existe e os corpos flutuam no ar, numa metáfora da gravitas e da graça presentes na função a que acaba por renunciar antes do final do mandato para como senador vitalício mais comum poder influenciar a escolha do sucessor com o seu voto no colégio eleitoral.


Já fora do Quirinal, De Santis no final revê numa tele-chamada, isomórfica da anterior comunicação com o espaço sideral, com a filha e o irmão compositor Riccardo (Francesco de Martino) que ela entretanto visita no Canadá, o destino da lei sobre a eutanásia e dos indultos propostos para Isa Rocca (Linda Messerklinger), a assassina do marido abusador que tem um amante apaixonado (Tommaso Amadio) que anseia pela sua libertação, e para Cristiano Arpa (Vasco Mirandola), que matara a esposa demenciada de quem cuidava, numa evidente maestria do argumento para concluir os subplots introduzidos e dando oportunidade ao protagonista presidente de se libertar pela acção da contemplação e excesso de ponderação em que aparentemente estava aprisionado.


Menos feliz parece ser o desvio pelos diálogos com o Papa franco-africano (Rufin Doh Zeyenouin), seu amigo, negro e com um rabo-de-cavalo, num tom leve de umas larachas irrelevantes, encontro caricatural a que Sorrentino na tradição da sua estética do exagero não quis resistir ou não conseguiu integrar na contenção que o resto do filme mantém.


Ao contrário das anteriores séries televisivas que Sorrentino dirigiu, O Jovem Papa (2016), dez episódios, com Pio XIII (Jude Law), e O Novo Papa (2019-2020), com João Paulo III (John Malkovich), neste caso Sorrentino não quis escolher um nome para o Papa, mas não se pode ignorar que o filme foi rodado em Março e Abril de 2025, imediatamente antes da morte do Papa Francisco, que praticamente já era esperada, e montado provavelmente já no início do papado de Leão XIV, cuja escolha do nome juntamente com o anterior Bento XVI retomou as duas excepções à mais conservadora e ortodoxa sucessão de Pios ou os conciliares João e Paulo e a sua combinação nos dois Papas seguintes.


Portanto explicitamente se interroga até onde pode continuar a informalidade de um chefe supremo da Igreja, quando o próprio poder civil parece querer subsistir numa autoridade majestática e impenetrável.


Numa das duas cenas o Papa afasta-se numa scooter, contrastando com a menos prática sotaina branca que ainda o identifica formalmente como Papa, mas talvez a sátira de Sorrentino, nascido em 1970, se volte numa outra direcção irresistível, atingindo o Nanni Moretti, que passeava de scooter em Roma em Querido Diário (1993), nascido numa outra geração em 1953, e que também tem visado de forma muito crítica a política italiana, de Palombella Rossa (1989), na desarticulação do Partido Comunista Italiano, a O Sol do Futuro (2023), no início da crise comunista no tempo da invasão soviética da Hungria, passando ainda por um retrato crítico de Berlusconi em O Caimão (2006) e pela perplexidade do eleito Cardeal Melville (Michel Piccoli) a ter de recorrer a um psicanalista (o próprio Moretti) para enfrentar a multidão que o espera na Praça de São Pedro em Habemus Papam – Temos Papa (2011).


Estou em crer que para além das interrogações perante os limites necessários à secularização do apelo transcendente e por ventura divinal da Igreja, inversa da sacralização do poder secular que parece observar-se, não deixa de parecer intencional o desafio ao “Papa” Moretti, em relação ao qual em entrevistas Sorrentino sempre mostrou uma pública reverência, com uma atitude nem sempre recíproca do lado percursor de Moretti, nesta espécie de competição nas gerações pós-neorrealista de Federico Fellini ou Michelangelo Antonioni ou na comédia italiana herdada de Dino Risi ou Ettore Scola.


O certo é que La Grazia é uma obra plasticamente muito interessante e que dá um retrato dramático e por vezes angustiante do quase insustentável paradigma presidencial nos Estados modernos. Reflexão que vem recolocar o cinema espectáculo numa posição de grande dignidade.


Garcia Marquez escreveu sobre o general e o seu labirinto no fim de vida do revolucionário sul-americano Simón Bolivar e da solidão e fracasso de um presidente na república pós-revolucionária e pós-colonial. Paolo Sorrentino procura aqui perceber o labirinto dos pretensos presidentes pós-absolutistas na velha Europa.

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