VALOR SENTIMENTAL - JOACHIM TRIER (2025)
- António Roma Torres

- há 2 dias
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Atualizado: há 15 horas
O VALOR SUBJECTIVO DOS OBJECTOS
António Roma Torres
E se de repente, contra todas as expectativas, Valor Sentimental, o sexto filme do norueguês Joachim Trier, saísse com o maior número de oscars na noite de 15 de Março em Hollywood?
Em princípio um realizador europeu não aspira a um sucesso desses – mas Bertolucci saiu com nove oscars em 1988 com O Último Imperador que no fundo era, aliás, uma produção anglo-americana.
E Anora no ano passado teve os cinco principais oscars depois de ter estado a falhar os prémios congéneres que costumam acalentar os melhores prognósticos.
Se tal acontecer, porém, é um prémio justo, porque Valor Sentimental situa-se a um nível muito superior aos anteriores filmes de Joachim Trier, mesmo assim notáveis como Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021), apenas destoando o relativo fracasso de Ensurdecedor (2015), talvez por ser uma mal ambientada produção americana, no entanto numa temática que até tem continuidade em Valor Sentimental.
É certo que isso seria visto com certeza pelos media, hoje em dia frequentemente desatentos, como uma provocação da esquerda democrata de Hollywood ao sonho imperial de Trump sobre a Groenlândia, até por Trier ser, de origem, um meio dinamarquês, como aliás o protagonista Stellan Skarsgård é sueco, neste emaranhado cultural classicamente escandinavo.
Mas Valor Sentimental teve já uma esmagadora presença na cerimónia dos prémios da Academia Europeia de Cinema (antes ditos os Félix) em Berlim em 17 de Janeiro, com seis vitórias (filme, realizador, actriz, actor, argumento e música) em oito nomeações, e ganhou ainda o BAFTA britânico para melhor filme em língua não inglesa, com outras sete nomeações falhadas; o Globo de Ouro americano de melhor interpretação em papel secundário para Stellan Skarsgård (a Academia Europeia não distingue essa categoria mas ainda assim premiou-o num papel que está longe de ser secundário), com outras sete nomeações falhadas; e o Grand Prix do Festival de Cannes para o realizador, mas falhou os prémios de interpretação, particularmente de actriz principal que Renate Reinsve tinha ganhado lá com o anterior filme de Trier, A Pior Pessoa do Mundo.
Ganhar muitos prémios ou não, não atesta necessariamente uma obra-prima, mas Valor Sentimental merece sem dúvida uma análise atenta à sua construção cinematográfica para permitir perceber se pode perdurar no tempo para a além do seu valor, parafraseando o filme, sentimental. E tendo em conta que o próprio cinema é um dos objectos do filme, centrado em Gustav Borg (Stellan Skarsgård), um cineasta prestigiado que contudo não roda um filme há já quinze anos, e Joachim Trier e o seu co-argumentista habitual Eskil Vogt, ele também um realizador autónomo, parecem querer, por interposto personagem, demonstrar o seu grande amor ao cinema.
O filme arranca de uma forma brilhante apresentando a personagem de Nora (Renate Reinsve), talvez por isso considerada nos prémios a principal, através da narradora que lê uma redacção sua, aos doze anos, sobre a casa de família, um modelo de casa tipo vicking, característica do período romântico do fim do século XIX, designada pelos arquitectos como Dragestil, como se de um ser vivo se tratasse. E depois percebemos que Nora chegou a pensar ler esse texto numa prova no seu curso de actriz, mas acaba por não o considerar tão bom como o tinha na memória e opta por um monólogo de Nina em A Gaivota de Tchekov, dizendo no final, “actriz, é o que eu sou”. E de imediato vemos Nora de um lado para o outro em pânico, mas silenciosa antes de entrar em palco numa estreia, até pedir ao colega (e, viremos a saber depois, amante) que lhe dê um estalo. Depois a cena é familiar, a reunião em casa após a cerimónia fúnebre na igreja na morte da sua mãe e ela com a irmã, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), atendendo parentes e amigos. E entra em cena o pai, Gustav, anos passados na Suécia depois de divorciar-se, discreto, alheado, circunstante, até subitamente abraçar as filhas.
Estão lançados os dados. Vamos acompanhar aproximações e afastamentos, reuniões e diálogos familiares, flashbacks ficcionados em filme anterior de Borg interpretado pela filha Agnes, ainda criança, fragmentos que a memória pode registar mas que perdem a continuidade de um todo, vivo. Águas passadas, mágoas presentes.
Joachim Trier consegue fazer um filme aparentemente ligeiro, ou com alguns apontamentos de humor (o banco do IKEA a simular uma peça verdadeiramente antiga ou a Netflix a solucionar o problema de financiamento do filme) mas a sua construção narrativa não é assim tão simples. A sua complexidade não se traduz, porém, numa comunicação com o espectador baseada no aborrecimento sem por isso se tornar um filme como se costuma dizer “comercial”.
Há sem dúvida a “sombra” de Ingmar Bergman a pairar, mas talvez mediada pela filosofia de Woody Allen. As citações estão no filme e ele próprio o confessa em entrevista com Vasco Câmara no Público. Gustav Borg com atenção à sua carreira mais do que acompanhamento às filhas na infância, como o filme de Mia Hansen-Løve A Ilha de Bergman revela sobre a vida privada de Ingmar, e as sobreposições do rosto de Gustav e Nora, ao modo de Persona, ou o fundo musical de jazz que acompanha a subida das escadas ao andar de cima mesmo antes de mostrar o posto de escuta das sessões de psicoterapia que fora a ocupação da mãe já antes falado, que a chaminé da lareira constituía, como em Uma Outra Mulher.
E ainda há como que uma descompressão na sequência do festival de cinema de Deauville, um pouco como o nosso passado da Figueira da Foz, com o filme antigo de Borg com a filha Agnés, a introdução de Rachel (Elle Fanning), a actriz americana que Gustav irá contratar para o papel que Nora recusara, e a noite quente na praia com um toque felliniano (ou a evocação será de Visconti e Morte em Veneza?)
Mas o filme desenvolve-se como uma sinfonia, na semelhança entre a construção fílmica e a musical que Eisenstein perfilhava, não apenas na congregação das extraordinárias interpretações de Stellan Skarsgård, Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning, todos eles nomeados para o oscar, como também o trabalho de argumento de Joachim Trier e Eskil Vogt e a montagem de Olivier Bugge Coutté, igualmente nomeados, ou a música de Hania Rani que, sem relevo nos oscars, foi premiada pela Academia Europeia, mas também no próprio jogo entre teatro, do lado da vida (acção), e do cinema, do lado da mente (reprodução e em alguns momentos talvez contemplação), com os momentos irónicos da incompatibilidade de Gustav com o teatro.
Repare-se no lado do teatro/vida as sucessivas “entradas em cena” de Nora, Gustav e depois Rachel, de visita à casa de família, como que a criar o aquecimento para uma performance, ou no lado cinema/mente as hábeis elipses, particularmente na aproximação ao suicídio de Nora e que na realidade fora o luto da mãe que Gustav transporta, e particularmente a descontinuidade distanciadora dos fundos negros que pontuam o filme.
Há diálogos muito significativos no filme que parecem cruzar a vida e a mente, como Nora dizendo, “mas tu conseguiste construir uma família, um lar” para a conclusão de Agnes “sim, há uma grande diferença na forma como crescemos: eu tinha-te a ti, sei que achas que és incapaz de cuidar dos outros, mas estavas sempre presente para mim, quando a mãe estava deprimida, lavavas-me o cabelo, penteavas-me, levavas-me à escola, fazias-me sentir segura” ou, noutra cena, Rachel que substituíra Nora no filme que Gustav prepara pretende abandonar o filme e Gustav conclui “então, já não queres fazer o filme” com ela a esclarecer, “eu só não quero desapontá-lo, não desistirei se realmente quiser que eu fique, mas é só comigo? isto não parece certo, também não parece certo para si, parece? eu fazer este filme? eu acho que não, sabe? você pediu-me para pintar o cabelo da mesma cor que o da sua filha, e, quer dizer, você não quer que este filme seja em inglês, quer? isso também não parece certo para você, não é? e eu não quero desapontá-lo, sinto muito”, para Gustav acabar por aceitar, “eu desapontei-te, Rachel, desculpa, a maioria dos actores faria o papel mesmo que achasse errado, ou simplesmente iria embora e deixaria os agentes resolverem a situação, mas tu vieste até aqui, és uma boa pessoa (…) por favor, não encares isto como um fracasso, és uma óptima atriz, estou a falar a sério”.
Como o título diz, Valor Sentimental tenta ser sobre o valor que as coisas têm. Ou aquele que nós lhe damos. Como falam as duas irmãs no seu primeiro encontro na casa de família agora abandonada e dos objectos que ainda ali estão, sem valor, ou com um mero valor sentimental, que alguém lhes atribui.
O filme fala de pensar os sentimentos. Que não é necessariamente a mesma coisa que sentir. E do cinema como um excelente meio para o fazer.


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