HENRIQUE ALVES COSTA CINÉFILO INCONFORMISTA - MANUEL VITORINO (2025)
- António Roma Torres

- 22 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
A ARTE E O EFÉMERO
António Roma Torres
Henrique Alves Costa: Cinéfilo Inconformista (2025) é uma curta (20 min.), documental, feita como complemento da prova final do Mestrado em Fotografia e Cinema na Escola Superior de Media, Arte e Design (ESMAD, Vila do Conde) do Instituto Politécnico do Porto, com o título Henrique Alves Costa e a Memória do Cinema Português, que o autor, Manuel Vitorino, está a divulgar com um entusiasmo particular, depois de uma carreira no jornalismo em O Primeiro de Janeiro (1986-1989) e Jornal de Notícias (1989-2010) e antes o exercício de outra profissão como desenhador, numa primeira exibição pública no Batalha Centro de Cinema (14-06-2025), presença em festivais de cinema, Curtas de Vila do Conde (17-07-2025) e Caminhos do Cinema Português em Coimbra (18-11-2025) e agora uma exibição no Cinemax da RTP 2 (11-12-2025) e na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto (12-12-2025).
Abertamente Cinéfilo Inconformista propõe-se lutar contra o esquecimento. No trabalho escrito Manuel Vitorino nota que o centenário de Alves Costa (1910-1988) praticamente foi ignorado na sua cidade do Porto e apenas a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema em Lisboa organizou uma sessão em sua homenagem.
Sendo o cinema uma criação com que todo o século XX se pode identificar, capaz de reter imagens em movimento e enquanto arte dar-lhe uma consistência que até aí se desconhecera, paradoxalmente muita da actividade desenvolvida em sua volta, de crítica de cinema ou com outros reflexos na imprensa ou a vivência da sala de cinema e dos debates de que o cineclubismo constituiu uma imagem de marca, esfumam-se no tempo e constituem inevitavelmente uma manifestação do efémero.
Manuel Vitorino conseguiu ultrapassar o efémero num trabalho que não é simplesmente jornalístico, como se poderia supor da sua actividade profissional prévia, ou sequer uma obrigação académica, como aparentemente se apresenta.
Cinéfilo Inconformista é ele próprio um exercício de cinefilia que supera habilmente a carta a Alves Costa, escrita numa velha máquina de dactilografar e desde as imagens iniciais lida com a voz radiofónica de Júlio Montenegro. É verdade que Manuel Vitorino teve de se debater com todas as dificuldades de obter materiais que o tempo esperado para uma prova académica não lhe facultou, mas principalmente com algum desinteresse ou até desleixo de instituições que pareceriam ser mais amigas da memória.
A tonalidade afectiva não fica expressa basicamente nesses artifícios da narrativa, mas antes no cuidado da imagem de Peter Jobling ou da banda sonora de José Valente e no tempo dos depoimentos em que pessoalmente colaborei. Manuel Vitorino escolheu criteriosamente os lugares e usa apenas alguns minutos de um registo que foi de certa maneira tenso e até nervoso, que contaminou a conversa, mas exigiu uma concentração que convocou a presença sobretudo do cinéfilo biografado.


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