top of page

MIROIRS Nº 3 - CHRISTIAN PETZOLD (2025)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • 6 de jan.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 7 de jan.


NECESSIDADES DE REPARAÇÃO

António Roma Torres

 

Christian Petzold é não só o que se costumava designar como um autor, na velha teoria dos Cahiers de capa amarela sobre a importância de cada obra na biofilmografia de determinado cineasta, mas também como um dos nomes grandes do actual cinema europeu.


Influenciado, a condizer, por Erich Rohmer, cineasta francês cujos filmes reviu de uma assentada no confinamento do COVID-19 (ver a experiência de Petzold com os DVDs vistos durante o confinamento em entrevista ao site Roger Ebert.com) e um dos críticos então da revista francesa, mas com um maior sentido plástico, se quisermos visual, ligado com a composição dos planos, e não apenas com a construção metafórica do argumento ou a riqueza das reflexões intelectuais ao nível dos diálogos, mas com uma idêntica tendência em agrupar os filmes em conjuntos sob um mote determinado.


Assim agora Miroirs No.3 vem somar-se aos imediatamente anteriores Undine (2020) e Céu em Chamas (2023) numa aparente trilogia (ou tetralogia, eventualmente “dos quatro elementos”, se tivéssemos em conta a ligação dos dois anteriores filmes respectivamente à Água e ao Fogo, ligação que se esbate, porém, no filme actual mesmo compulsando declarações em entrevistas do realizador).


Acresce que estes três filmes são protagonizados por Paula Beer, e já agora também Em Trânsito (2018), que fazia uma trilogia sobre a história alemã, do nazismo e da ocupação francesa ou da satelitização soviética da parte leste, com os imediatamente anteriores Bárbara (2012) e Phoenix (2014), ambos também com uma mesma actriz, mas nesse caso Nina Hoss.


Miroirs No.3 começa logo na estranheza do título, inicialmente um título provisório, de trabalho, durante as filmagens (ver entrevista de Petzold a João Antunes, JN, 01-01-2026), mas depois mantido porque é uma das cinco suites de Ravel, a tocada no filme pela estudante de piano, Laura (Paula Beer).


No entanto é evidente que há a sugestão da composição do argumento, em que após um acidente de estrada, como que a vida se suspende (note-se que Um barco sobre o oceano" é um outro título do terceiro movimento da peça de Ravel), um clima também prolongado nomeadamente do seu filme anterior, aí por uma avaria no automóvel, mas de uma forma mais vaga também nos seus outros filmes, colocando face a face, como num espelho, Laura com Betty (Barbara Auer), uma mulher da geração anterior (a reminiscência de Ingmar Bergman também é mais ou menos óbvia, principalmente a um espectador cinéfilo que evocará Como num Espelho e Sonata de Outono, embora o realizador sueco fosse mais dramático na sua cinematografia, paralela à que teve também como encenador de teatro).


Laura e Betty estão ambas num processo agudo de sobrevivência e luto pela perda de um familiar íntimo, necessitando as suas perdas de uma reparação, o que se acentua pelo próprio leit-motiv das várias avarias de utensílios domésticos que se sucedem e que Max (Enno Trebs) e Jakob (Philip Froissant) são chamados a reparar. Eles são o marido e o filho de Betty e têm uma oficina de automóveis em meio rural e portanto com competências em mecânica, e vivem noutra casa, mas as contingências do argumento, com a entrada de Paula nas suas órbitas, irão reaproximá-los.


O filme de Christian Petzold desenvolve-se como um puzzle inteligente que constitui um ensaio sobre a natureza humana, nomeadamente o que sucede quando da morte de entes queridos e a compaixão ou simples ligação entre os humanos que é muito mais que os processos de empatia e terapia usados em saúde mental.


No núcleo destas quatro personagens esboçam-se identificações e projecções mas Christian Petzold vai além de um projecto psicologista e de certa forma o que ele retrata é o tempo das respostas normais e não o de uma suposta patologia.


Talvez se possa admitir que Laura já está abalada antes de perder o namorado, o que ela própria parece relativizar e note-se que não lhe vemos qualquer referência a uma mãe (no final é mesmo apenas o pai que a vem buscar). Ou que Betty não consegue partilhar a dor da perda da filha com familiares íntimos a viver o mesmo processo.


O trabalho de argumento de Christian Petzold é minucioso e seguido com todo o rigor até ao desfecho em diferentes ensaios e possibilidades – reencontro do casal a sós ou aproximação esboçada entre Laura e Jakob -; até uma serenidade aparente nos dois planos fixos separados por fundo negro, a que chega no final – a um lado Betty, o marido e o filho, e a outro lado, só, Laura (ver entrevista de Christian Petzold em Film Comment).


Além disso, como em outros filmes do realizador, há flashs de uma espécie de percepção extrassensorial ou sensibilidade cósmica, que estabelece uma forma de comunicação de outra ordem, por exemplo logo no início com o efeito de premonição, nomeadamente no primeiro enfrentamento (e quase atropelamento) de Laura, ainda com o namorado, e Betty, na berma da estrada.


Miroirs No.3 recebeu o prémio especial do júri João Bénard da Costa no Lisbon Film Festival (LEFFEST) e integrou o Top Ten Film Award 2025 dos Cahiers du Cinéma (10º lugar), com Batalha atrás de Batalha (2º), O Agente Secreto (4º) e Nouvelle Vague (8º), actualmente em cartaz (o 1º lugar na votação da revista francesa foi para Tardes de Solidão de Albert Serra, co-produção franco-hispano-portuguesa).

Posts recentes

Ver tudo
O AGENTE SECRETO - KLEBER MENDONÇA FILHO (2025)

NO CUBÍCULO DO PROJECCIONISTA António Roma Torres   O Agente Secreto  de Kleber Mendonça Filho é sobre o encanto do cinema e no entanto tudo parece suceder de uma forma secreta cujo significado parec

 
 
 
JUSTA - TERESA VILLAVERDE (2025)

PERDIDOS NUM FUMO DENSO António Roma Torres   Talvez nunca o título de um filme tenha sido tão essencialmente justo. Justa  é o nome de uma das protagonistas, criança em processo de maturação que inte

 
 
 
AS MENINAS EXEMPLARES - JOÃO BOTELHO (2025)

PARA NÃO DEIXAR QUE A CONVERSA ACABE António Roma Torres   Ao décimo sétimo filme, longas-metragens de ficção, que tem ainda na sua conta alguns documentários e trabalhos maiores e menores para a tele

 
 
 

Comentários


Sobre nós

Este é um blog sobre cinema, particularmente sobre os filmes portugueses entre 1972 e a actualidade e os filmes em exibição nas salas de cinema portuguesas

© 2035 por O Artefato. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook B&W
  • Twitter B&W
  • Branca Ícone Instagram
bottom of page