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O AGENTE SECRETO - KLEBER MENDONÇA FILHO (2025)

  • Foto do escritor: António Roma Torres
    António Roma Torres
  • 30 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 31 de dez. de 2025


NO CUBÍCULO DO PROJECCIONISTA

António Roma Torres

 

O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho é sobre o encanto do cinema e no entanto tudo parece suceder de uma forma secreta cujo significado parece sempre meramente provisório. Não por acaso algumas cenas importantes passam-se no cubículo de um projeccionista de cinema, Alexandre (Carlos Francisco). Provavelmente como em Cinema Paraíso (1988). Mas o que no excelente filme de Giuseppe Tornatore era mediado magistralmente pelas regras de um género, o melodrama, e reescrevia o neo-realismo de que o cinema italiano verdadeiramente nunca se livrou, em Kleber Mendonça Filho é uma viagem por uma visão mais alargada do cinema e a reprodução do real não parece nunca a verdadeira carta de intenções. Para ele talvez se possa dizer que o cinema é o que se passa na cabeça do espectador e não o cinema que existiu nas telas de uma sala de espectáculo.


Logo no início de Retratos Fantasmas, filme imediatamente anterior do realizador, mas de certa forma documental, disponível em streaming no Filmin, Kleber Mendonça Filho enuncia a sua teoria ao discutir a possibilidade de conseguir filmar de noite uma rua mal iluminada e a diferença que constitui o artifício da iluminação na imagem do cinema (“quando você junta o normal com a imagem do cinema aí fica a cara de um filme”).


Antecipa-se a importância que a direcção de fotografia da russa Evgenia Alexandrova, radicada em França, irá ter em O Agente Secreto, e que irá ser um dos seus trunfos principais.


Mas um outro dos seus méritos, não menos relevante, é o da direcção de actores, onde muitíssimos deles seguram com inesperado brilho as várias cenas em que o filme, de certa maneira se pode dizer, está descomposto. Isso está apontado logo no preâmbulo na magnífica cena numa gasolineira numa estrada pouco movimentada, onde subtilmente se plasma um clima do oeste americano que de diferentes maneiras se vai mantendo ao longo do filme mesmo em ambiente mais urbano, também em conexão com os policiais dos gangs do tempo da lei seca que de certa maneira lhe sucedeu. E claro que o gosto pelos géneros cinematográficos, sem o qual provavelmente não se pode compreender o próprio cinema, é uma imagem de marca do filme e nomeadamente a sua referência explícita a Tubarão (1975) de Steven Spielberg, estreado no Brasil em 25 de Dezembro de 1975 e ao cinema de terror.


A acção do filme aliás é suposto passar-se em 1977, com o filme ainda acessível em algumas salas mas principalmente durante o período da longa ditadura militar no Brasil (1964-1985), mas há alguma ambiguidade e o filme pode estar também a falar-nos do posterior e mais actual período de Bolsonaro e Lula e de um clima de realidade cifrada onde se torna difícil distinguir os factos e a imaginação e a realidade política parece feita por argumentistas de cinema, mesmo em muitas outras distintas paragens a nível internacional.


Marcelo, que parece também poder ser Armando, é o personagem central que liga toda a acção, e é magnificamente interpretado por Wagner Moura e pretende talvez habilitar-se ao oscar de interpretação que por pouco não bafejou na época passada Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui.


Mas a galeria de personagens-tipo é imensa e sucede-se a bom ritmo cada um passando o testemunho ao seguinte, aí também lembrando, talvez não por acaso, Anora de Sean Baker, na época anterior multi-premiado em Hollywood: a começar por Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, iniciada no cinema aos 72 anos num pequeno papel num anterior filme de Mendonça Filho, Bacurau, suposta líder de um núcleo de resistência que pretende proteger Marcelo, ou por Cláudia (Hermila Guedes), em cujos braços Marcelo repousa num curto momento de menor tensão, até ao confronto sangrento do “policial” Euclides, numa impressiva figuração de Robério Diógenes, e os seus capangas, Sérgio (Igor de Araújo) e Arlindo (Ítalo Martins) ou alguns outros mais brutais e de rostos duros, confrontando-se com Augusto (Roney Villela) e Bobby (Gabriel Leone), contratados pelo magnata Ghirotti (Luciano Chirolli) para assassinar Marcelo, tarefa que acabam por passar em outsourcing a Vilmar, num retrato inigualável de Kaiony Venâncio, e tudo num registo visual sangrento qb. que parece ter herdado muito do western, em particular de Sam Peckinpah ou de, numa internacionalização à italiana, Sergio Leone.


O filme parece circular num labirinto de identidades obscuras conformes à anomia, segundo um velhinho critério da sociologia durkheimiana - quantas cenas se não passam no Arquivo de Identificação na busca da Maria [des] Aparecida mãe de Marcelo ou na entrega dos novos documentos de identificação a uma população anónima, ou mesmo na disputa de identidade entre o judeu salvo do holocausto ou o nazi fugido no final da guerra no personagem de Hans, interpretado pelo alemão Udo Kier no seu derradeiro papel no cinema?


No fundo todos os personagens do filme, e não apenas o protagonista Marcelo/Armando, são seres que agem (agentes) em forma cifrada (portanto também secretos) e a esse título o final do filme ainda acresce um novo grau de incerteza, com uma doação de sangue que estabelece como que uma rede de vasos comunicantes ou de identidades difusas, similar à entrega da pen com o conteúdo onde se dá espaço a outra mulher perdida da história de Marcelo, a falecida esposa Fátima (Alice Carvalho), em gravações feitas por Elza (Maria Fernanda Cândido), antes um artifício narrativo, que a jovem historiadora estudante Flávia (Laura Lufési) investigou e agora pretende entregar a um Fernando que conhecêramos criança (Enzo Nunes) e aparece, agora adulto, na pele de um Wagner Moura bem diferente, evasivo, aparentando uma estranha amnésia ou alheamento, talvez no exercício de um direito ao esquecimento ou à libertação de um passado sempre a condicionar uma repetição no futuro.


Mas será a memória que nos pode salvar ou é o esquecimento que permite o descontinuar da mesma história? – parece ser o dilema do personagem quando guarda no bolso do casaco a pen.


Mesmo assim quem garante que, como no Tubarão do próprio Spielberg que o aterrorizou na infância, toda a acalmia não possa estar subitamente à mercê de um repentino ataque?


Anote-se ainda para o prestígio desta produção brasileira que o filme foi premiado no Festival de Cannes, nas categorias de melhor realizador (Kleber Mendonça Filho), melhor interpretação masculina (Wagner Moura), além dos prestigiados prémios da imprensa cinematográfica (FIPRESCI) e dos circuitos de arte e ensaio (AFCAE).

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